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Mostrando postagens de outubro, 2026

Devaneios: Uma Rua Fora do Caminho

Foto: Thao Nguyen Uma das maiores tristezas do ser humano é perceber que seus dias estão se esvaindo em uma monotonia morna e silenciosa. Quem não percebe acaba deixando a vida passar sem se dar conta, até que a velhice bate à porta. São dias que se resumem a acordar, trabalhar, comer e descansar, para então, na manhã seguinte, retornar ao mesmo ciclo. Essa era a vida de Camilo. Na volta do trabalho, enquanto caminhava pela Avenida Santos Dumont, Camilo questionava a própria rotina. Não tinha uma vida ruim. Acordava todos os dias às seis da manhã, tomava banho e seguia para o trabalho. No ano anterior, decidira ir a pé. Embora a distância fosse considerável, gastaria praticamente o mesmo tempo se fosse de transporte coletivo e, caminhando, ainda faria o exercício físico que tanto lhe cobravam. O percurso levava quarenta minutos, por isso saía religiosamente às 6h45. Assim, chegava cinco minutos antes do horário de registrar o ponto. Ele almoçava ao meio-dia e sempre esquentava a marmit...

Devaneios: Chamada de 0000

Fonte: Tecnoblog Luciano estava sentado em seu sofá da sala havia mais de quinze minutos, de frente para a televisão, observando as imagens, mas sem dar a mínima atenção. Seus ombros pesavam e as suas costas doíam. Desde que chegara em casa do trabalho, só tivera forças para se jogar no sofá, ligar o aparelho com o controle remoto e ficar esperando a vida acontecer. Desabotoou alguns botões da camisa, remexeu-se, encontrando uma posição ainda mais desconfortável que a anterior, mas sem ânimo para procurar outra mais cômoda. Puxou o telefone do bolso, abriu o TikTok e começou a rolar seu feed, tentando preencher seu cérebro com aquela endorfina rápida. Ao fundo, ouvia-se a voz de um comentarista esportivo falando sobre a rodada de futebol. Luciano já não se importava com futebol havia tempos, mas nunca perdera o hábito de ligar em canais esportivos para ouvir os comentários de fundo. Todo dia, após o trabalho, era assim que ele recarregava o mínimo de sua bateria antes de tomar um banho...

Expectativa zero, desconforto garantido: As Indignas, de Agustina Bazterrica

O que esperar de um livro quando o pegamos para ler sem saber nada sobre ele? Apenas o gênero e a autora. Comecei a ler o livro As Indignas, de Agustina Bazterrica, pois foi o escolhido para o Clube do Livro de Uberaba, no mês de outubro. A temática era Halloween e, quando ele foi escolhido, só sabia que era um livro de terror escrito pela autora de Saboroso Cadáver, que, por sinal, também não li. Nem mesmo li a sinopse. Apenas olhei para a capa, que, aliás, é uma baita capa, e então iniciei a leitura. E como terminei tão rápido? Bom, ele é bem curto, com 144 páginas, e no formato de uma espécie de diário, sem separação de capítulos, o que acabou me instigando a lê-lo de uma só vez. Capa da edição brasileira, Tusquets Editores Aqui, temos uma história que se passa em um mundo devastado por catástrofes ambientais, guerras e escassez de recursos, onde a sobrevivência se tornou uma luta constante para todos os seres vivos. É nesse cenário que acompanhamos o diário de uma mulher que vive n...

5ª Parada: São Tomé e Príncipe - Chá do Príncipe e o Sabor das Lendas

Santo António do Príncipe ©Scott Ramsay Chegamos agora à 5ª parada dessa viagem literária pelo mundo. Quem diria que eu me manteria tão empolgado ainda no ano em que decidi. Eu mesmo não botava tanta fé, mas cá estamos. Dessa vez, voltando para o continente africano, em um dos países lusófonos. Paramos em São Tomé e Príncipe. E pesquisando a respeito dos autores, descobri Olinda Beja, uma escritora muito popular tanto dentro quanto fora do país. Olinda é conhecida por seus contos recheados com a cultura santomense, quase folclórica, além de seus versos e poemas. Assim sendo, escolhi como a leitura da vez Chá do Príncipe, uma coletânea de diversos contos, todos recheados com a belíssima cultura santomense. Aqui, Olinda Beja dá voz a lendas regionais, personagens icônicos e até mesmo registros cotidianos de uma cultura muito viva. Mas, escolher Chá do Príncipe acabou se tornando um problema no quesito "escrever sobre" aqui no blog. Capa Livro: Chá do Príncipe - Editora Imã São ...

Devaneios: 53 Minutos

  Foto: Tiago Fagundes Soares 53 minutos. Os ombros de Cláudio estavam curvados, como se algo estivesse puxando-o para baixo, e a gravata amarrada em seu pescoço parecia possuir o peso de uma bigorna. A pasta de couro, já surrada, era segurada debilmente por seus dedos cansados. O dia não havia sido fácil, com tantos problemas para resolver no escritório, gritos histéricos do chefe cobrando por mais resultados e as ironias dos colegas. Mais um dia como os outros na sua vida. Seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, afrouxando a gravata para tentar aliviar o peso em seu pescoço. Chegando lá, olhou para o painel eletrônico onde que indicava os horários. LARANJEIRAS / CORURIPE → 53 min. – Excelente…, – resmungou ele, dando um chute em uma pedrinha que estava no calçamento. Jogou-se no banco de metal, sentindo suas forças esvaírem-se lentamente, enquanto o cansaço o dominava. Ainda sentado no banco, perdido em pensamentos irritadiços, desviou seu olhar para o outro lado da aven...

4ª Parada: Chile - Kramp e as Estradas da Infância

Foto: Nico Berríos Nem sempre precisamos de grandes calhamaços, com milhões de páginas, para sermos impactados por uma leitura. Eu, sendo leitor de fantasia, estou acostumado a me jogar em livros gigantescos, com infinitos volumes, e me perder ali no meio das páginas ( alô, A Roda do Tempo! ). Mas, vez ou outra, me pego lendo livros curtinhos. Claro que, quando temos um livro grande, há mais espaço para o desenvolvimento de personagens, núcleos ou mesmo cenários. Mas, às vezes, a forma como o autor quer nos alcançar pode ser realizada de uma maneira bem mais direta. E é assim com Kramp, de Maria José Ferrada, autora chilena. Quando pedi para minha noiva escolher o próximo país do qual eu leria um livro, ela escolheu o Chile. Minha primeira opção era A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Mas, quando vi que era uma trilogia, escolhi Kramp, que um amigo já havia lido também este ano e tinha gostado muito. Sim, eu sei que a “trilogia” de Isabel Allende poderia ser lida como um livro...

3ª Parada: Nigéria - Hibisco Roxo e as Fissuras do Silêncio

Abuja City Gate - Foto: Stuffedbox NG É sempre fascinante poder enxergar o poder que a literatura tem, de nos inundar com sensações, sentimentos e até desconforto físico, somente com palavras. Retomando a minha saga de 197 histórias pelo mundo, abandonei qualquer tipo de ordem que fazia o mínimo de sentido na minha cabeça, e fui ler um livro da Nigéria. E como um dos expoentes da literatura africana, Chimamanda Ngozi Adichie tem muitas obras publicadas aqui no Brasil. Assim sendo, fui atrás de Hibisco Roxo, um dos livros mais renomados da autora. E o que eu encontrei nessa leitura, foi fora do padrão de qualquer outra que eu pudesse imaginar. Capa: Hibisco Roxo - Companhia das Letras Aqui, vemos o mundo pelos olhos de Kambili, uma garota de quinze anos que vive com os pais e seu irmão Jaja, em uma casa onde tudo é muito bem organizado. Seu pai, Eugene, é um homem rico, respeitado e extremamente católico, conhecido por ajudar os outros e por defender suas convicções com firmeza. Dentro ...