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| Foto: Thao Nguyen |
Uma das maiores tristezas do ser humano é perceber que seus dias estão se esvaindo em uma monotonia morna e silenciosa. Quem não percebe acaba deixando a vida passar sem se dar conta, até que a velhice bate à porta. São dias que se resumem a acordar, trabalhar, comer e descansar, para então, na manhã seguinte, retornar ao mesmo ciclo. Essa era a vida de Camilo.
Na volta do trabalho, enquanto caminhava pela Avenida Santos Dumont, Camilo questionava a própria rotina. Não tinha uma vida ruim. Acordava todos os dias às seis da manhã, tomava banho e seguia para o trabalho. No ano anterior, decidira ir a pé. Embora a distância fosse considerável, gastaria praticamente o mesmo tempo se fosse de transporte coletivo e, caminhando, ainda faria o exercício físico que tanto lhe cobravam. O percurso levava quarenta minutos, por isso saía religiosamente às 6h45. Assim, chegava cinco minutos antes do horário de registrar o ponto.
Ele almoçava ao meio-dia e sempre esquentava a marmita que preparava no fim de semana. Usava potinhos de vidro que guardavam aquela magia que só o micro-ondas parecia proporcionar: as bordas do pote ficavam insuportavelmente quentes, enquanto o centro da comida permanecia gelado como o focinho de um cachorro. Almoçava às pressas, em não mais que quinze minutos, para poder cochilar no sofá da recepção durante o restante da hora de almoço. Os colegas sempre destacavam o superpoder de Camilo: bastava encostar no sofá para apagar.
Saía do trabalho às 17h30, pontualmente, e caminhava de volta para casa. Sempre pelo mesmo trajeto, tanto na ida quanto na volta. Os mesmos quarenta minutos. O percurso se tornara tão automático que ele já não precisava pensar no caminho. As calçadas pareciam conhecer de cor o movimento de seus pés, ritmados e precisos. De segunda a sexta, essa era a rotina de Camilo. Aos sábados, preparava as refeições da semana seguinte. Aos domingos, ajeitava a casa e deixava tudo organizado, já que durante a semana nunca encontrava tempo para isso.
Durante a caminhada, quando o cansaço permitia, ele se deixava divagar sobre algumas coisas. Enquanto as pernas seguiam o caminho de sempre, a mente tomava outros rumos. Naquela tarde, ele se perguntava em que momento os dias haviam começado a parecer todos iguais. Não conseguia apontar uma segunda-feira em especial, nem mesmo se lembrar de quando deixara de esperar alguma coisa dos próprios dias. Tudo havia acontecido aos poucos, sem que percebesse. Os meses passavam, suas tarefas se repetiam e, quando piscava, já era novamente sexta-feira. O descanso abençoado do domingo o envolvia, e tudo se iniciava novamente na segunda. Não havia nada de errado naquela rotina. Mas talvez esse fosse o problema. Como reclamar de dias que, vistos separadamente, não tinham nada de ruim, mas que, ao mesmo tempo, não pareciam levar a lugar nenhum?
Camilo percebia que não tinha mais sonhos, planos ou mesmo ambições. Era como se seu corpo boiasse em um oceano. As águas permaneciam imóveis, e ele não encontrava forças para se mover. Para onde quer que olhasse, não via nada além daquela imensidão cristalina. Não havia nada ao redor que o impulsionasse para fora daquele lugar.
Diante de um cruzamento, esperava o sinal abrir para os pedestres. Enquanto os carros cruzavam a avenida em um zunido ritmado, Camilo percebeu que, se quisesse sair daquele mar morto, precisava dar as primeiras braçadas. "Mas como se mover na água quando não se sabe em que direção seguir? E como nadar quando nem sequer se sabe nadar?" Tentou reconstruir mentalmente o caminho que ainda tinha pela frente. Ainda faltava mais da metade do caminho até sua casa. Caminharia mais três quadras até virar à esquerda na Rua Hidelbrando Pontes e, então, seguiria por mais alguns quilômetros antes de virar novamente à direita. O sinal abriu. Dezenas de pessoas começaram a atravessar a larga avenida, e ele foi com elas.
Quando chegou à esquina em que, por hábito, viraria à esquerda, hesitou por um instante. Então virou à direita. Um movimento completamente novo e improvável. Seu coração batia acelerado e sua respiração era ofegante. A cada passo que dava, flexionava os dedos das mãos, como se tentasse espantar um formigamento que teimava em brotar de suas palmas. A cada nova esquina, olhava para a esquerda e para a direita e deixava o acaso escolher a direção seguinte. Não se preocupava em se perder. A cidade era pequena, e sabia que, a qualquer momento, podia abrir o Maps e descobrir onde estava. Perdeu as contas de quantas vezes dobrou à esquerda e depois à direita.
Uma leve brisa tocou-lhe o rosto, e ele caminhou alguns passos de olhos fechados, sentindo aquele toque suave, quase um afago. Sentia o peito leve, como se uma liberdade até então desconhecida o carregasse nos braços. Quando abriu os olhos, algo chamou sua atenção.
Uma casa se destacava à esquerda da rua. A fachada branca estava quase toda encoberta por uma trepadeira de folhas avermelhadas e verdes, que subiam pelas paredes e se espalhavam ao redor das janelas. Algumas hastes pendiam sobre as molduras, enquanto outras se entrelaçavam em pequenos emaranhados. A vegetação crescia sem qualquer simetria, mas havia cuidado naquela desordem. Algumas plantas ocupavam os degraus da entrada, deixando livre apenas uma estreita passagem até a porta. Era uma beleza simples, mas impressionante. A casa tinha um ar antigo, com a pintura descascando em alguns pontos e algumas rachaduras próximas ao beiral, mas estava longe de parecer abandonada. Pelo contrário, aquela casa exalava vida. Ao passar diante da casa, Camilo reparou nas janelas. Através do vidro, conseguia enxergar parte do interior. Encostada a uma das paredes, havia uma enorme estante abarrotada de livros de diversos tamanhos, cores e estilos. Camilo não conseguia enxergar os títulos, mas sentiu algo se aquecer dentro do peito. Havia quanto tempo não pegava um livro para ler?
Ultimamente, suas noites se resumiam às redes sociais. Sem perceber, Camilo havia trocado o hábito da leitura, que sempre o acompanhara, pelo deslizar dos dedos em um feed infinito de vídeos curtos. Aos poucos, os livros foram perdendo espaço, até que Camilo já não se lembrava da última vez em que havia se sentado para ler por vontade própria. Parecia distante aquela época em que devorava um livro após o outro, sempre ansioso para descobrir o que encontraria nas páginas seguintes.
Camilo não soube dizer quanto tempo permaneceu ali, parado diante da janela. Forçou a vista em uma tentativa de identificar os títulos nas lombadas, mas não conseguiu. Respirou fundo e voltou a observar a casa, atentando para o contraste entre o branco da fachada, o vermelho e o verde das folhas. Pegou o telefone no bolso e conferiu as horas. Já caminhava havia mais de trinta minutos por ruas que não costumava percorrer. Abriu o Maps e percebeu que não estava tão distante de casa. Mais vinte minutos e estaria de volta ao seu bairro. Guardou o celular e seguiu caminho.
Durante o restante da caminhada, Camilo se lembrou de alguns livros que tinha em casa e que ainda não havia sequer aberto. Pensou também naqueles de que não gostara tanto, mas que continuavam guardados na estante, à espera de uma troca em algum sebo. Escolheria um deles naquela noite. Não precisava terminar o livro, tampouco recuperar o antigo hábito de uma hora para outra. Bastava começar e essa ideia o acompanhou de volta para casa.
O caminho ainda lhe parecia longo, e Camilo continuava sem saber muito bem o que fazer com os dias que tinha pela frente. Ainda estava naquele mar parado, mas agora se permitia mover os braços. Pela primeira vez em muito tempo, teve a impressão de que não precisava conhecer o destino para continuar nadando.
~Wil

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