Acredito que seja o sonho da grande maioria dos apaixonados pela literatura publicar a sua própria história. Eu mesmo, por sinal, tento sempre trabalhar em uma minha, mas acabo me autossabotando e desistindo no caminho. Imaginem a minha surpresa quando descubro que um companheiro de trabalho havia acabado de publicar, de forma independente, seu próprio livro. E digo mais: um livro de ficção científica, um dos meus gêneros favoritos. Não medi esforços e cobrei esse meu amigo até a publicação, além da versão física, também da versão digital (que atualmente é a que mais funciona para as minhas leituras) e iniciei a leitura assim que esteve disponível.
Comecei, então, a jornada através do Diário Mental N, do meu amigo Rodrigo M. Rodovalho. Nessa história, acompanhamos o despertar de uma consciência, ainda completamente sem memórias, mas com alguns fragmentos de seus gostos e hábitos, em um laboratório. Nesse ambiente, a consciência vai percebendo que pertence a um cérebro humano que, mediante os avanços tecnológicos, mesmo com a morte do seu corpo de carne, permaneceu vivo e agora fazia parte de um novo experimento, onde seria fornecido um novo corpo metálico para que pudesse habitar. Em meio a testes de adaptação física e mental, lutas constantes para reaver a memória de seu passado e muitas referências à cultura nerd, vamos enxergar através da mente dessa consciência enquanto ela faz novas amizades e luta pela própria sobrevivência. Evito aqui entrar em mais detalhes para não dar spoilers acidentais que possam atrapalhar a experiência individual.
Antes de tudo, gostaria de agradecer ao meu amigo Rodrigo por ter me deixado fazer parte dessa jornada. É muito bom ver pessoas próximas realizando sonhos como esse. Escrever um livro não é uma tarefa fácil e exige, além de dedicação, muita coragem. E Diário Mental N é uma jornada muito interessante de se acompanhar. Claro que, por ser a primeira história publicada do autor, ela ainda está mais bruta e tem alguns problemas, mas nada que atrapalhe a imersão na história.
Há alguns pontos que gostaria de ressaltar. O primeiro está relacionado à escolha narrativa do autor. Por se tratar de um cérebro retomando a sua consciência do "eu", toda a história gira em torno do seu próprio ponto de vista, inteiramente em seus próprios pensamentos, daí o nome Diário Mental. Então toda a narrativa é estabelecida em primeira pessoa e no presente. Estamos lendo o que o personagem está pensando. Porém, por se tratar de um livro, as cenas em questão estão sendo narradas para que nós, leitores, possamos compreender o que está acontecendo. O que acaba soando meio antinatural, uma vez que muito dificilmente narramos, em nossos próprios pensamentos, as cenas que vivenciamos. Então essa estranheza inicial acabou fazendo com que eu não "engrenasse" tão rapidamente. Mas, passado algo em torno de 30% do livro, eu já havia me habituado à narrativa e li mais de 60% do livro em um dia. Os próprios acontecimentos da história ajudaram para que o ritmo se tornasse mais frenético.
Senti falta também de um melhor desenvolvimento da personalidade dos personagens. O nosso protagonista é até compreensível. Ele ainda está em um processo de redescobrimento, onde suas memórias não lhe pertencem mais, apenas a sua parte nerd. Então creio que, no decorrer das próximas histórias, veremos esse lado mais bem trabalhado. Mas os personagens secundários, principalmente o Dr. Daniel e a Dra. Lara, que são os mais recorrentes, sinto que poderiam ter sido um pouquinho mais desenvolvidos, visto que desenvolvem uma amizade muito grande com nosso protagonista, mas vemos apenas o lado "nerd" dessa interação.
Outra questão que vale comentar, e que acredito estar relacionada principalmente ao fato de ser o primeiro trabalho do autor, é que os diálogos são um pouco mecânicos. Principalmente se tratando de interações de personagens terciários, eles são um pouco engessados e não tão naturais, o que acaba deixando algumas cenas um pouco estranhas e até meio genéricas, visto que todos esses personagens acabam sendo meio "iguais".
Porém, a segunda metade do livro, se assim puder ser separada, é onde a obra realmente ganha o seu valor. Enquanto na primeira parte estamos acompanhando o trabalho de adaptação da consciência à sua nova vida, na segunda estamos acompanhando esse personagem realmente em ação. O ritmo de urgência, por mais que surja de maneira meio abrupta, deixa a história muito mais instigante e em um fluxo que não consegui parar de ler até ver o fim. Temos várias cenas bem memoráveis e, em alguns momentos, até bem tensas.
Terminamos com um gancho para possíveis continuações, pelas quais estou muito ansioso, visto que mais da metade das perguntas não foram respondidas. Pelo contrário, surgiram ainda mais dúvidas do que no início. Sem contar que, sem dúvidas, veremos um autor já mais maduro e com mais experiência. Espero encontrar as respostas para as questões levantadas ao final do livro e ver um desenvolvimento ainda maior desses personagens que aqui surgiram.
Um início muito promissor de uma história cativante e envolvente, com muito humor e muitas referências às nerdices, tal como o bom e velho Jogador Nº 1, de Ernest Cline. Expectativas foram criadas, e espero ansioso para ver até onde essa história irá.
~Wil



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