Jamais imaginei que um soulslike fora dos desenvolvidos pela FromSoftware pudesse se tornar o meu favorito. Sendo mais sincero, jamais imaginei que algum soulslike pudesse desbancar Dark Souls 1 para mim. Claro, não sou nenhum exímio jogador do gênero no geral. Joguei poucos, considerando a vastidão que ele tem. Mas o impacto que esse em específico causou em mim foi fora da curva.
Dark Souls 1 é uma obra-prima, com um level design absurdo de bom, chefes icônicos, uma história pra lá de instigante e uma jogabilidade muito divertida. Mesmo Elden Ring, que é mecanicamente e graficamente anos-luz superior, não supera a consistência do DS1, que o torna muito mais especial para mim.
Muitos vão dizer: “Ah, mas existe Bloodborne e Sekiro…”. Sim, eu sei. Bloodborne foi, inclusive, o meu primeiro contato com o gênero. Mas em outra época, quando eu não tinha paciência para jogos difíceis assim, acabei parando depois de certa parte. Preciso recomeçá-lo para ter uma opinião formada, que não seja embotada pelas frustrações de um Wilker do passado. Sekiro eu ainda não joguei de fato, por isso esse relato é apenas comparado aos soulslikes que joguei até hoje. E sim, posso afirmar com certeza: Lies of P é o meu soulslike favorito até então.
Lies of P é um jogo desenvolvido pelo estúdio sul-coreano Round 8 Studio e publicado pela NEOWIZ, lançado em 2023. No mesmo ano de lançamentos de peso, como Baldur’s Gate III, Spider-Man 2, The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom e Alan Wake 2. Um ano realmente impactante para a indústria, com tantos jogos bem elogiados. Lies of P também recebeu inúmeros elogios, e não sem motivos.
Nesse jogo, acompanhamos uma releitura do clássico Pinóquio. Mas não a animação da Disney, que é a versão mais famosa da história. Aqui vemos uma releitura do clássico literário As Aventuras de Pinóquio, do escritor italiano Carlo Collodi. Assumimos o papel do títere criado por Geppetto. Uma voz misteriosa nos acorda e guia nossos passos por uma cidade chamada Krat, completamente inspirada na era vitoriana, com diversos elementos de steampunk.
Krat é uma cidade imersa em completo caos. Um lugar que outrora era alegre e contagiante, agora está coberto de loucura, destruição e sanguinolência. Um frenesi fez com que todos os títeres se voltassem contra os humanos. Somado a isso, uma epidemia transforma pessoas em monstros, deixando a atmosfera caótica e hostil em cada canto que percorremos. Enfrentando todos esses desafios, e bota desafios nisso, iniciamos nossa jornada com o objetivo de encontrar nosso pai e criador, Geppetto. E, claro, para isso precisaremos lutar e mentir.
Desde os primeiros minutos de gameplay, é possível perceber a grande inspiração dos desenvolvedores nos soulslikes da From, principalmente em Bloodborne. Os cenários da Belle Époque, aliados à atmosfera aterrorizante dos monstros, tornam essa influência quase palpável. Mas é inspiração, não cópia. Lies of P tem identidade própria e não deixa a peteca cair no quesito design. Todos os cenários são extremamente bonitos e muito bem construídos. Mesmo nas áreas em que parecem se repetir, isso é justificado por serem apenas outras ruas da mesma cidade. E ainda assim, o parecido não é igual.
Aqui começo a falar do motivo de esse jogo ter tomado o lugar de Dark Souls 1 no meu topo de soulslikes favoritos. Quando penso nisso, chego a dois fatores decisivos.
O primeiro é que, por ser um jogo com protagonista definido, eu acabo me afeiçoando muito mais à história do que quando criamos um personagem próprio. Acompanhar a jornada de Pinóquio em sua busca para se tornar humano me aproxima demais do jogo. Cada sidequest aumenta ainda mais o apego pelos personagens, tanto o protagonista quanto os NPCs, todos com desenvolvimentos pessoais interessantes que caminham em paralelo com o nosso pequeno títere. E falando em sidequests, nenhuma me deixou cansado ou saturado. Todas têm uma progressão muito boa e recompensas interessantes ao concluí-las.
O segundo motivo é, sem dúvida, a trilha sonora. Que trilha absurda. O trabalho do diretor Silun Lee aqui é fascinante. As músicas são extremamente imersivas e ajudam a construir uma atmosfera fantástica. Existe também uma mecânica em que adquirimos colecionáveis, entre eles discos de vinil, que podem ser tocados em um gramofone no Hotel Krat, que funciona como nossa base, quase uma Firelink desse jogo. E todas as músicas desses discos são fantásticas. Sem exagero, já perdi as contas de quantas vezes coloquei “Feel” para tocar fora do jogo e de quantas vezes voltei ao hotel só para ouvi-la de novo. Que música incrível.
É difícil colocar em palavras o quanto esse jogo mexe comigo nessa combinação de cenário e música. A atmosfera melancólica, os questionamentos sobre o que é ser humano, sobre o que existe no coração das pessoas, e toda essa estética steampunk me marcaram profundamente.
O combate é gratificante e conta com um parry muito satisfatório, como é comum no gênero. Há uma mecânica que incentiva a agressividade, não tão intensa quanto em Bloodborne, mas semelhante. Quando defendemos ataques, exceto no caso da defesa perfeita, ainda recebemos dano. Porém, se atacarmos logo em seguida, dentro de uma janela de tempo, conseguimos recuperar o HP perdido. É um combate muito gostoso de desenvolver, com grande variedade de armas e uma mecânica interessante de montar e desmontar armas, combinando cabos com golpes específicos e lâminas diferentes, de acordo com a necessidade. Soma-se a isso o Braço Legionário, que funciona como uma segunda arma. E há também os arremessáveis, consumíveis extremamente fortes e quase indispensáveis em certos momentos.
Se for para apontar um defeito, eu diria a variedade de inimigos. Depois de certo tempo, eles começam a se repetir com alguma frequência. Existem três tipos base: títeres, carcaças e humanos. A partir deles surgem variações. Em algumas fases, enfrentamos versões muito parecidas dos mesmos inimigos, com poucas diferenças. Ainda assim, são momentos pontuais e que não chegam a incomodar de forma significativa.
Os chefes são, em sua maioria, memoráveis e desafiadores. Alguns são menos marcantes, mas a grande maioria deixa impressão. Mais para o final do jogo, há até um momento que lembra aquele icônico “I’m Malenia, Blade of Miquela”.
Eu amei cada segundo desse jogo. Comecei achando que seria apenas mais um soulslike divertido para passar o tempo, mas encontrei aqui um dos meus jogos favoritos da vida. A ambientação, a trilha sonora, os questionamentos, os desenvolvimentos e as conclusões deixaram marcas profundas, que vou lembrar com muito carinho.
~Wil
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