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Devaneios: Uma Rua Fora do Caminho

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Devaneios: Chamada de 0000

Fonte: Tecnoblog Luciano estava sentado em seu sofá da sala havia mais de quinze minutos, de frente para a televisão, observando as imagens, mas sem dar a mínima atenção. Seus ombros pesavam e as suas costas doíam. Desde que chegara em casa do trabalho, só tivera forças para se jogar no sofá, ligar o aparelho com o controle remoto e ficar esperando a vida acontecer. Desabotoou alguns botões da camisa, remexeu-se, encontrando uma posição ainda mais desconfortável que a anterior, mas sem ânimo para procurar outra mais cômoda. Puxou o telefone do bolso, abriu o TikTok e começou a rolar seu feed, tentando preencher seu cérebro com aquela endorfina rápida. Ao fundo, ouvia-se a voz de um comentarista esportivo falando sobre a rodada de futebol. Luciano já não se importava com futebol havia tempos, mas nunca perdera o hábito de ligar em canais esportivos para ouvir os comentários de fundo. Todo dia, após o trabalho, era assim que ele recarregava o mínimo de sua bateria antes de tomar um banho...

Expectativa zero, desconforto garantido: As Indignas, de Agustina Bazterrica

O que esperar de um livro quando o pegamos para ler sem saber nada sobre ele? Apenas o gênero e a autora. Comecei a ler o livro As Indignas, de Agustina Bazterrica, pois foi o escolhido para o Clube do Livro de Uberaba, no mês de outubro. A temática era Halloween e, quando ele foi escolhido, só sabia que era um livro de terror escrito pela autora de Saboroso Cadáver, que, por sinal, também não li. Nem mesmo li a sinopse. Apenas olhei para a capa, que, aliás, é uma baita capa, e então iniciei a leitura. E como terminei tão rápido? Bom, ele é bem curto, com 144 páginas, e no formato de uma espécie de diário, sem separação de capítulos, o que acabou me instigando a lê-lo de uma só vez. Capa da edição brasileira, Tusquets Editores Aqui, temos uma história que se passa em um mundo devastado por catástrofes ambientais, guerras e escassez de recursos, onde a sobrevivência se tornou uma luta constante para todos os seres vivos. É nesse cenário que acompanhamos o diário de uma mulher que vive n...

5ª Parada: São Tomé e Príncipe - Chá do Príncipe e o Sabor das Lendas

Santo António do Príncipe ©Scott Ramsay Chegamos agora à 5ª parada dessa viagem literária pelo mundo. Quem diria que eu me manteria tão empolgado ainda no ano em que decidi. Eu mesmo não botava tanta fé, mas cá estamos. Dessa vez, voltando para o continente africano, em um dos países lusófonos. Paramos em São Tomé e Príncipe. E pesquisando a respeito dos autores, descobri Olinda Beja, uma escritora muito popular tanto dentro quanto fora do país. Olinda é conhecida por seus contos recheados com a cultura santomense, quase folclórica, além de seus versos e poemas. Assim sendo, escolhi como a leitura da vez Chá do Príncipe, uma coletânea de diversos contos, todos recheados com a belíssima cultura santomense. Aqui, Olinda Beja dá voz a lendas regionais, personagens icônicos e até mesmo registros cotidianos de uma cultura muito viva. Mas, escolher Chá do Príncipe acabou se tornando um problema no quesito "escrever sobre" aqui no blog. Capa Livro: Chá do Príncipe - Editora Imã São ...

Devaneios: 53 Minutos

  Foto: Tiago Fagundes Soares 53 minutos. Os ombros de Cláudio estavam curvados, como se algo estivesse puxando-o para baixo, e a gravata amarrada em seu pescoço parecia possuir o peso de uma bigorna. A pasta de couro, já surrada, era segurada debilmente por seus dedos cansados. O dia não havia sido fácil, com tantos problemas para resolver no escritório, gritos histéricos do chefe cobrando por mais resultados e as ironias dos colegas. Mais um dia como os outros na sua vida. Seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, afrouxando a gravata para tentar aliviar o peso em seu pescoço. Chegando lá, olhou para o painel eletrônico onde que indicava os horários. LARANJEIRAS / CORURIPE → 53 min. – Excelente…, – resmungou ele, dando um chute em uma pedrinha que estava no calçamento. Jogou-se no banco de metal, sentindo suas forças esvaírem-se lentamente, enquanto o cansaço o dominava. Ainda sentado no banco, perdido em pensamentos irritadiços, desviou seu olhar para o outro lado da aven...

4ª Parada: Chile - Kramp e as Estradas da Infância

Foto: Nico Berríos Nem sempre precisamos de grandes calhamaços, com milhões de páginas, para sermos impactados por uma leitura. Eu, sendo leitor de fantasia, estou acostumado a me jogar em livros gigantescos, com infinitos volumes, e me perder ali no meio das páginas ( alô, A Roda do Tempo! ). Mas, vez ou outra, me pego lendo livros curtinhos. Claro que, quando temos um livro grande, há mais espaço para o desenvolvimento de personagens, núcleos ou mesmo cenários. Mas, às vezes, a forma como o autor quer nos alcançar pode ser realizada de uma maneira bem mais direta. E é assim com Kramp, de Maria José Ferrada, autora chilena. Quando pedi para minha noiva escolher o próximo país do qual eu leria um livro, ela escolheu o Chile. Minha primeira opção era A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Mas, quando vi que era uma trilogia, escolhi Kramp, que um amigo já havia lido também este ano e tinha gostado muito. Sim, eu sei que a “trilogia” de Isabel Allende poderia ser lida como um livro...

3ª Parada: Nigéria - Hibisco Roxo e as Fissuras do Silêncio

Abuja City Gate - Foto: Stuffedbox NG É sempre fascinante poder enxergar o poder que a literatura tem, de nos inundar com sensações, sentimentos e até desconforto físico, somente com palavras. Retomando a minha saga de 197 histórias pelo mundo, abandonei qualquer tipo de ordem que fazia o mínimo de sentido na minha cabeça, e fui ler um livro da Nigéria. E como um dos expoentes da literatura africana, Chimamanda Ngozi Adichie tem muitas obras publicadas aqui no Brasil. Assim sendo, fui atrás de Hibisco Roxo, um dos livros mais renomados da autora. E o que eu encontrei nessa leitura, foi fora do padrão de qualquer outra que eu pudesse imaginar. Capa: Hibisco Roxo - Companhia das Letras Aqui, vemos o mundo pelos olhos de Kambili, uma garota de quinze anos que vive com os pais e seu irmão Jaja, em uma casa onde tudo é muito bem organizado. Seu pai, Eugene, é um homem rico, respeitado e extremamente católico, conhecido por ajudar os outros e por defender suas convicções com firmeza. Dentro ...

Devaneios: Café da Tarde

Bom, aqui estamos. Fim da Oficina Liber Quest. Foi uma experiência incrível, e para mim, que tenho a pretensão de um dia conseguir construir boas histórias, aproveitei cada minuto. Foram oito exercícios no total, todos compartilhados aqui com vocês, e que tenho muito orgulho de seu resultado final. Alguns exercícios me permitiram acessar emoções que antes eu mantinha muito bem guardadas. Outros me permitiram enxergar um amor por histórias melancólicas, tão grande quanto a fantasia, que tanto leio. Ainda é o meu porto seguro, claro, mas acessar tais portas foi um tanto inesperado. De qualquer forma, agora o fluxo de contos nessa seção Devaneios aqui deve dar uma queda vertiginosa. Acredito que a programação normal do blog, com resenhas de livros, jogos e quadrinhos retorna com mais ímpeto. Obrigado a todos que me acompanharam nessa jornada, e, sempre que tiver novas histórias para contar, eu venho até aqui para compartilhá-las com vocês. Fiquem, então, com o último exercício. *** Café d...

Devaneios: A Cólera

 Enfim, penúltimo exercício da Oficina Liber Quest. Confesso que estou um pouco triste de pensar que está chegando ao fim, e que falta apenas um exercício. Mas, tudo que é bom dura pouco. O exercício da vez, deveríamos levar nossos personagens à um extremo. Até onde ele poderia chegar para realizar aquilo que acredita ser o certo. Bem, novamente me embrenhei pela fantasia, e o resultado foi esse. *** A Cólera Crédito: Benjamin Farren O manto vermelho carmesim de Yalden tremulava ao açoitar do vento. Seus olhos ardiam, não apenas pela secura do ar, mas também pela privação de sono que ele enfrentava há semanas. Agora, ele e Kyr estavam a poucos quilômetros da Cidade Murada de Sanur, no topo de uma serra, de onde podiam ver a estrada que levava a um dos portões de entrada. A cidade era gigantesca, a terceira maior do Reino, e seus muros estendiam-se em uma imensa circunferência. – Então é aqui que ele se escondeu – disse Yalden, semicerrando os olhos para tentar ver os limites d...

Devaneios: A Sombra da Maldição

No sexto exercício da Oficina Liber Quest, deveríamos criar uma situação onde duas vozes entrariam em conflito para que o personagem então tomasse uma decisão entre elas. Com a intenção de trabalhar conflitos internos, decisões e contradições. Com o meu apego à fantasia, que é meu gênero literário favorito, aqui eu comecei a direcionar minhas histórias para esse caminho. Espero que gostem do resultado final. *** A Sombra da Maldição   Ryckard pousou as mãos sobre as gigantescas portas de ferro fundido, cobertas de ferrugem. Os intrincados desenhos de rosas e espinhos, símbolo do Reino Eterno de Gallad, tocaram seus dedos. Ele empurrou com todas as forças que ainda lhe restavam, e o metal respondeu com uma recusa por alguns instantes, até ceder em um rangido metálico ensurdecedor. Um cheiro doce de rosas mesclava-se a um odor pútrido de carne em decomposição e atingiu o rosto de Ryckard como uma bofetada. O salão era iluminado por tochas presas aos pilares centrais. A luz permitiu q...