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O eco de um crime na vida de quem ficou: Penitência, de Kanae Minato

Kanae Minato é uma mestre em nos prender em histórias tenebrosas em pouquíssimas páginas. É absurda a capacidade que essa autora tem de criar narrativas que já se iniciam de forma visceral e impactante, e de te segurar até o final, ansiando pela conclusão. Ela também é responsável por aquele tipo de história em que até a menor das sinopses pode tirar o impacto do que será contado, e por isso é tão difícil comentar seus livros sem dar spoilers.

Meu primeiro contato com a autora foi no livro Confissões. Já adianto: dos dois que li, ele ainda é o melhor. As reviravoltas, a maneira como toda a situação é conduzida, é magistral. Já neste segundo livro, Penitência, que irei comentar agora, a proposta é outra, mas isso não muda sua capacidade de nos surpreender.

Em Penitência, acompanhamos, assim como em Confissões, uma divisão por capítulos em que cada um é narrado sob a perspectiva de uma personagem. Todas as personagens que compartilham seus relatos têm suas vidas entrelaçadas a um crime que aconteceu quando ainda eram crianças. Fica aqui o alerta de gatilhos, pois a história envolve violência sexual e assassinato de crianças.

Em uma cidade não nomeada, um grupo de meninas presencia o assassinato de uma colega que havia se mudado recentemente de Tóquio para o interior com sua família. Essa colega foi vítima de violência sexual e morta de maneira brutal. Suas amigas, que brincavam nos arredores, foram as primeiras a se deparar com a cena e a comunicar os adultos. Incapaz de suportar a perda da filha, a mãe da vítima acaba por amaldiçoar as crianças, entendendo que elas também tiveram culpa, já que não conseguiram identificar o criminoso, mesmo tendo visto o homem antes do crime. Assim, anos depois, ela impõe uma espécie de “praga”: se não ajudassem a encontrar o responsável antes da prescrição do crime (que no Japão nessa epoca, era de 15 anos), deveriam cumprir uma penitência à altura. A partir disso, acompanhamos, a cada capítulo, o ponto de vista de uma dessas meninas e como tanto o crime quanto as palavras dessa mãe afetaram profundamente suas vidas.

A maestria de Kanae Minato, para mim, está não só na forma instigante como escreve, elevando nossa ansiedade ao máximo para descobrir o desfecho, mas também na maneira como constrói personagens complexas. Todas as personagens deste livro, com suas visões de mundo, angústias e situações difíceis decorrentes do trauma, são impressionantes. Em pouquíssimas páginas, ela cria figuras extremamente humanas e marcantes.

Aqui, o objetivo não é contar uma história sobre um crime e descobrir o culpado. Foi interessante ter tido contato com essa obra logo após terminar um livro de Agatha Christie, em que toda a narrativa gira em torno da solução do crime. Em Penitência, Kanae usa um crime hediondo como ponto de partida para falar sobre traumas, relacionamentos tóxicos, egoísmo e irresponsabilidade. Dá até para perceber críticas à sociedade opressora vivida por estudantes e profissionais japoneses. Tudo isso sob a ótica de personagens profundamente machucadas, com marcas permanentes em sua formação. A autora explora o quanto situações assim podem impactar o desenvolvimento de uma pessoa e como tragédias podem desencadear outras tragédias.

De fato, não é um livro fácil de ler, principalmente por tratar de temas tão sensíveis. Ainda assim, tudo é conduzido de forma tão instigante que é difícil parar depois de começar. É um relato cru de uma realidade que, muitas vezes, existe ao nosso redor, mas da qual não temos dimensão do quanto pode ser devastadora para quem a vivencia. Kanae Minato é uma mestre no que faz, e eu estou muito ansioso para ler mais de seus trabalhos.

~Wil

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