Pular para o conteúdo principal

Engrenagens e Alma Brasileira: A Lição de Anatomia, de Enéias Tavares

Eu já terminei esse livro há um tempinho, já li outras coisas depois dele e até escrevi aqui sobre livros que terminei depois, como os do projeto Volta ao Mundo em 197 Narrativas. Mas sentia que estava sendo injusto com ele por não falar dele aqui. Para corrigir esse erro, vim falar de A Lição de Anatomia, de Enéias Tavares. E, em se tratando de injustiça, sou também com a literatura nacional. Dentro do âmbito da literatura no país, somos "doutrinados" a entender a literatura estrangeira como a ideal e incomparável. Em se tratando do gênero de fantasia e ficção científica então, que constitui a maior parte do que eu consumo, isso se torna ainda mais presente, inclusive por parte de autores nacionais, que tentam emular a literatura produzida lá fora.

Como hoje estou estimulado a falar de injustiças, quero citar mais uma. É comum, entre os leitores de todo o mundo, adquirir muito mais livros do que se costuma ler. Eu também sou assim. Em um levantamento recente, descobri que tenho mais de 100 livros físicos em casa que ainda não li e decidi começar a correr atrás disso. A Lição de Anatomia estava na minha estante há mais de quatro anos. Para ser sincero, eu tive uma edição anterior, que saiu pela Casa da Palavra, a qual ficou facilmente por mais de 10 anos na minha estante sem que eu a lesse. O título dessa edição, inclusive, era muito melhor: "A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison". Até que me desfiz dela, presenteando um amigo que também gostava do gênero, e adquiri uma nova no sebo aqui da minha cidade.

Tentando, então, ser mais justo com a minha coleção de livros, este ano comecei a ler A Lição de Anatomia, na edição publicada pela Darkside. E, em se tratando disso, é absurdo o trabalho da editora aqui, como sempre. As ilustrações e o trabalho de diagramação e estruturação são fantásticos.

Nessa história, estamos em um Brasil alternativo, imerso naquela temática steampunk, em um passado tecnológico cheio de autômatos, dirigíveis e aparatos retrofuturistas. Mais especificamente em Porto Alegre dos Amantes, um médico da alta sociedade, Antoine Louison, se tornou o homem mais temido do país. Ele ficou conhecido como o Estripador da Perdição, sendo responsabilizado por uma série de assassinatos brutais que chocaram toda a sociedade e transformaram a simples menção de seu nome em sinônimo de pesadelo e horror.

Após anos de perseguição, Louison foi capturado e aguarda uma definição a respeito de seu destino em um manicômio de segurança máxima. Assim, em busca de uma entrevista exclusiva com o facínora, o repórter Isaías Caminha é enviado por um jornal do Rio de Janeiro para uma conversa particular com ele. O que começa como uma investigação sobre um notório criminoso vai, aos poucos, se tornando algo muito mais complexo. Com uma estrutura muito peculiar, que reúne noitários, transcrições de gravações, cartas, bilhetes e diversos outros relatos, a trama intensifica os mistérios em torno das ações de Louison, a ponto de provar que as convicções estabelecidas podem ser quebradas muito facilmente.

O trabalho de Enéias Tavares aqui é incrível. É impressionante como o autor conseguiu escrever uma história que, embora recheada de clichês estabelecidos no steampunk internacional, é cheia de referências à nossa cultura e à nossa literatura. Brasiliana Steampunk foi pensada para um Brasil que, por mais que vitoriano, é repleto de personagens presentes em histórias de nossos antigos mestres da literatura, como Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Raul Pompéia, dentre outros. Além de carregar um grafismo das palavras que remete muito ao português antigo, não só na escrita delas, como na própria estruturação das frases, carregadas daquele simbolismo poético em suas descrições, tornando a leitura muito bonita e difícil de explicar em palavras.

“A religião do crucificado tem lá o seu valor, senão enquanto verdade, enquanto metáfora. Somos todos como ele, pregados numa estaca e deixados para morrer, entre outras criaturas igualmente flageladas. Queremos água, e nos dão vinho avinagrado. Queremos palavras de boa sorte, e nos furam o bucho com uma lança. Queremos presentes, e nos tiram as roupas, jogando jogos de sorte e azar. Queremos um pai que nos abrace e temos apenas o nosso abandono.”

O trabalho do autor em sua narrativa vai muito além de simplesmente trazer uma história intrigante. Ele aborda muitos temas envoltos em preconceitos raciais, de gênero e sexualidade, além de debater sobre a impunidade da aristocracia, dos políticos e até mesmo de figuras religiosas. É um livro no qual o leitor é convidado a procurar respostas além dos rótulos de herói e vilão, e a entender até que ponto a verdade pode se resumir na versão contada pelos vencedores.

Os personagens são todos incríveis e cheios de profundidade. Todos carregam consigo seus medos, suas vontades e suas percepções de mundo. Tanto os integrantes do Parthenon Místico quanto os secundários que permeiam a história despertam a vontade de acompanhá-los em seu cotidiano, vendo onde suas ambições os levariam, mesmo que longe da trama em torno de Louison. É o caso, por exemplo, de Pombinha, Rita Baiana ou Solfieri: personagens cheios de carisma e que carregam histórias muito interessantes.

“São tantas as possibilidades para essa narrativa que quase me perco em suas infindas variantes. Como na vida, a concatenação de uma história nem sempre segue uma lógica precisa e predeterminada. Às vezes, como no dia a dia, precisamos, narradores que somos de nosso próprio drama, improvisar.”

Em uma mistura de romance policial e fantasia steampunk, A Lição de Anatomia é um deleite para qualquer leitor do gênero, além de ser um excelente quebrador de preconceitos. O livro me conquistou muito rapidamente, logo no início da leitura, e me prendeu de tal forma que, mesmo algum tempo após ter terminado e com vários outros livros de distância, ainda me pego pensando sobre tudo o que absorvi ali. Gostaria muito que mais pessoas pudessem dar uma chance a um livro tão visceral e impactante, mas tão encantador ao mesmo tempo.

~Wil


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Entre memórias e novos começos em Pokémon Legends: ZA

O ano de 2025 com certeza foi um dos mais movimentados em questão de lançamentos de jogos que agradaram a grande maioria dos jogadores. E, na reta final do ano, um título que dividia opiniões antes mesmo de sair, cheio de polêmicas, turbulências e até um vazamento, finalmente chegou ao público: Pokémon Legends: ZA (ou, carinhosamente, pokemonza). Capa aberta Pokémon Legends: ZA Esse texto vai ser mais do que uma simples resenha. Quando comecei a pensar em escrevê-lo, percebi que eu precisava fazer mais do que uma review do jogo — eu precisava falar sobre a minha experiência completa com a série Pokémon. E, pra mim, é impossível falar sobre videogames na minha vida sem falar de Pokémon. Então, pra quem só quer saber minha opinião sobre Legends: ZA, eu dividi o texto em três partes. Na primeira, “ Como um jogo 2D acendeu uma chama que nunca apagou ”, falo sobre o quanto a série é importante pra mim. Na segunda, “ A vez de Pokémon Legends: ZA ”, começo a tratar do jogo em si. E concluo na...

O valor da espera e do reencontro: Inazuma Eleven Victory Road

O ano de 2025 foi um convite ao meu eu criança para um retorno aos videogames. Não apenas um retorno ao hábito de jogar, mas um reencontro com franquias que moldaram meu gosto, minha sensibilidade e minha relação com os jogos. Foi o ano em que todas as minhas franquias favoritas daquela época, títulos que até hoje figuram entre os meus favoritos da vida, ganharam algum novo lançamento. Foi o ano de Pokémon Z-A, que já mencionei anteriormente aqui, trazendo novos ares para a franquia Pokémon. Foi também o ano de Story of Seasons, com o remake de Grand Bazaar, do DS, além do spin-off da série Rune Factory, Guardians of Azuma. Mesmo que eu tenha jogado pouquíssimo esses spin-offs no passado, eles ainda fazem parte desse universo que me acompanhou por tantos anos, e ainda não tenha jogado o remake de Grand Bazaar. E havia um jogo específico, anunciado em 2016, que só viria a ser lançado em 2025, após inúmeros adiamentos e sucessivas mudanças de conceitos, nomes e direções. Um jogo de um...

Mentir para se Tornar Humano: O coração mecânico de Lies of P

Jamais imaginei que um soulslike fora dos desenvolvidos pela FromSoftware pudesse se tornar o meu favorito. Sendo mais sincero, jamais imaginei que algum soulslike pudesse desbancar Dark Souls 1 para mim. Claro, não sou nenhum exímio jogador do gênero no geral. Joguei poucos, considerando a vastidão que ele tem. Mas o impacto que esse em específico causou em mim foi fora da curva. Dark Souls 1 é uma obra-prima, com um level design absurdo de bom, chefes icônicos, uma história pra lá de instigante e uma jogabilidade muito divertida. Mesmo Elden Ring, que é mecanicamente e graficamente anos-luz superior, não supera a consistência do DS1, que o torna muito mais especial para mim. Muitos vão dizer: “Ah, mas existe Bloodborne e Sekiro…”. Sim, eu sei. Bloodborne foi, inclusive, o meu primeiro contato com o gênero. Mas em outra época, quando eu não tinha paciência para jogos difíceis assim, acabei parando depois de certa parte. Preciso recomeçá-lo para ter uma opinião formada, que não seja em...