Não esperei muito tempo para fazer a próxima viagem e escolhi como ponto de parada, desta vez, o continente Latino-Americano, na Argentina. Pesquisando sobre alguns autores hermanos, descobri alguns publicados no Brasil. Muito me interessei por algumas histórias do Jorge Luis Borges, como O Aleph ou Ficções. Mas, em tempos de Copa do Mundo, minha atenção é completamente capturada pela magia do futebol, e encaixar leituras no meu tempo livre, em meio a tantos jogos, está bem difícil. Decidi então escolher algo mais curto, mais direto.
Encontrei então um livro de um autor chamado Pedro Mairal, e com um nome muito curioso: A Uruguaia. Um livro argentino falando sobre uma uruguaia? Fui ler a sinopse e achei muito interessante, além de bem curto.
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| Capa do Livro, pela Editora Todavia |
Neste pequeno livro, acompanhamos o escritor de 40 anos, boêmio e cheio de problemas, Lucas Pereyra, que mora em Buenos Aires. Lucas está imerso em problemas. Enfrenta problemas financeiros, emocionais, conjugais e familiares. Em direção a Montevidéu, Lucas tem dois objetivos ao visitar o Uruguai. O primeiro deles é driblar o controle cambial da Argentina e sacar 15 mil dólares em dinheiro vivo de um adiantamento literário, dinheiro esse que quitaria todas as suas dívidas e lhe daria tranquilidade para escrever. O segundo é o seu verdadeiro segredo: reencontrar Magalí Guerra, uma jovem uruguaia vinte anos mais nova que ele, a quem conheceu em um evento literário no passado e que, desde então, tornou-se a personificação de todas as suas fantasias de liberdade, juventude e salvação. E o livro é todo estruturado em uma espécie de confissão, onde Lucas conta à sua esposa toda a sua epopeia em direção ao Uruguai e todas as desventuras que aconteceram com ele desde que pisou no solo do país, incluindo a traição.
É mais um daqueles livros onde o autor cria um protagonista excêntrico e arrogante, cheio de si e com uma personalidade terrível de acompanhar. Eu não vou mentir, detestei o Lucas desde o começo de seu relato e, por mais da metade do livro, detestava também ler suas opiniões e fantasias formuladas a respeito das pessoas que cruzaram seu caminho, ou até mesmo sobre seu filho. Em um momento de explosão de frustração sobre a paternidade, e para reclamar de como é difícil cuidar de uma criança, ele chega a comparar a situação a “cuidar de um anão bêbado”. Eu não vou negar que não tenha rido da forma como foi exposto, mas estava sendo tudo construído para ser realmente um personagem bem detestável.
Seus relatos eram extremamente verborrágicos e cheios de alegorias poéticas sobre situações simples do cotidiano, e sempre com uma exaltação, por mais que poética, sexualizada, a respeito de praticamente todas as situações, tornando a narrativa quase que suja. Nesses momentos, sei que o objetivo era justamente exaltar a frustração sexual que o personagem estava passando, e ele acaba por utilizar isso como uma muleta para justificar a sua própria traição. Lucas Pereyra foi pensado para ser um personagem bem odioso, e o autor conseguiu despertar isso em mim, mas eu estava completamente desconectado da história, pensando em qual momento aquela parte introspectiva, de questionamentos internos, chegaria. E por mais da metade do livro eu não estava fisgado.
Mas depois que ele tem o seu reencontro com Guerra, e uma série de acontecimentos começam a despontar, o livro teve uma virada de chave em mim e cresceu muito. Esses gatilhos que mudaram a direção pela qual a história estava seguindo foram muito importantes e significativos, ao ponto de que, sim, o personagem passa a se questionar mais, entender melhor o seu lugar nesse furacão de emoções em que se encontrava e tenta recalcular uma rota. Por ser uma espécie de carta-confissão, ele dedica grande parte do final para debater as conclusões que retirou de toda essa viagem e como sua vida acabou sendo outra. Ao final de sua jornada, sua vida estava completamente despedaçada, mas, aparentemente, ele havia se reencontrado, sabendo por onde recomeçar.
Foi uma experiência e tanto, uma montanha-russa de sentimentos, essa leitura, mas que, para um livro tão curtinho, foi muito intensa, principalmente no apagar das luzes. Livros como esse são aqueles que me dão mais gás para continuar lendo, mesmo que a experiência em determinada parte seja ruim. A chance de uma história mudar e melhorar bastante em sua reta final existe, e não é tão rara de se encontrar. Assim como a chance de piorar também.
"Quando alguém te dá um chute, você fica alerta como se não existisse ninguém do seu lado, e, quando de repente alguém te trata bem, você baixa a guarda e se desarma. O afeto derruba você."
Vou encerrando esse papo por aqui, mais curto desta vez, mas para uma história também curta, e que, para mais comentários, eu seria obrigado a entrar em um território de spoilers, o que não gosto de fazer. Então, espero vocês na próxima parada, e que Deus abençoe a Copa do Mundo.
~Wil


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