Eu tenho o costume de começar muitos projetos literários pessoais, sempre de maneira bem empolgada. Porém, terminá-los, aí é outra história. Comecei a ser mais ambicioso nesses projetos. Por exemplo, eu tenho uma meta de vida de ler a obra inteira da Rainha do Crime, Agatha Christie, até minha velhice. Essa não é uma meta tão ambiciosa, imaginando que são livros curtos e que eu já li uma parcela boa deles. Mas, ainda assim, é uma estrada longa.
Não satisfeito com essa única meta, resolvi me dedicar a mais um projeto. A ideia desses projetos não é pautar minhas leituras apenas neles, mas ter um frescor a mais para eu sair da mesmice e, ao mesmo tempo, aumentar o meu conhecimento de cultura mundial. Qual é, então, a ideia do projeto? Ler um livro, conto ou história de cada país do nosso globo. Ou seja, serão mais de 190 livros (algo em torno de 197, salvo engano). Começamos aqui, então, um projeto que carinhosamente apelidei de Volta ao Mundo em 197 Narrativas.
Começamos essa viagem no continente europeu, na curiosíssima Albânia. Curioso foi quando comecei a pesquisar livros escritos por autores albaneses e encontrei um chamado Abril Despedaçado. Eu jurava que essa história fosse brasileira. Existe um filme, dirigido por Walter Salles e estrelado por Rodrigo Santoro, que tem esse mesmo nome. Foi uma incrível surpresa descobrir que esse filme trata-se de uma adaptação desse romance para as nossas terras tupiniquins, onde os costumes albaneses que permeiam a história eram muito similares aos praticados pelo povo do interior nordestino.
![]() |
| Capa do Livro Pela Editora Companhia das Letras |
![]() |
| Capa do Filme de Walter Salles |
O romance é estruturado principalmente em duas perspectivas diferentes, até que elas se cruzam. Começamos acompanhando Gjorg Berisha, um jovem montanhês cuja vida é completamente influenciada pelas regras e obrigações do Kanun, que exigem que ele vingue a morte do seu irmão, que havia sido assassinado por uma família rival, em uma vendetta que já se estende há muitos anos. Depois, seguimos com o ponto de vista de um casal de intelectuais urbanos, em sua lua de mel, Diana e Bessian. Enquanto vemos esse sistema por dentro, aos olhos de Gjorg, temos a perspectiva externa aos olhos de Diana e Bessian, que ficam fascinados e inquietos com esse sistema tão complexo.
Em meio a esse contraste de visões, sob a mesma história, Kadaré constrói uma obra que é muito mais do que apenas uma narrativa sobre costumes locais. Ele usa muito dessa sua história para conversar sobre fatalismo, liberdade, violência, vingança, o peso das estruturas sociais sobre a vida dos indivíduos e até mesmo sobre o valor da vida do ser humano. O quanto vale realmente a vida de um homem? Tecendo esses questionamentos ao longo da narrativa, o autor constrói uma história bem melancólica e com muita tensão, onde a sombra de um destino que parece estar traçado há muito tempo segue todos eles como se fosse uma sombra.
Esse é um livro do qual, com certeza, o que se tira ao final é muito melhor e mais interessante do que a experiência de lê-lo em si. Toda a parte do ponto de vista do Gjorg é incrível. É muito interessante acompanhar a cabeça desse personagem, que a todo tempo questiona essas atitudes impostas pelo Kanun, mas que ao mesmo tempo sabe da importância de seguir essas regras, não apenas por si e por sua identidade como parte da família Berisha, mas também para toda a família, cuja honra está toda sobre suas próprias mãos. Cabe a ele cumprir a vendetta e aceitar as consequências da mesma. Gjorg é um personagem muito complexo e muito interessante de se explorar. Todos os seus questionamentos são extremamente plausíveis e satisfatórios, e é muito interessante perceber como o peso do que é correto fazer pesa sobre ele acima da razão.
Em contrapartida, a história de Bessian e Diana é chata. Os dois, por serem colocados ali como os personagens alheios ao Kanun, são utilizados por Kadaré como um tipo de dicionário para o leitor, que não tem conhecimento sobre esses costumes. Todos os diálogos, cenas e atitudes são pautados em serem como uma Wikipédia para que nós, que estamos tão distantes dessa cultura, possamos entender como ela é. Mas eu senti, nesse ponto, que principalmente Diana, devido à sua importância na história, é uma personagem muito voltada para servir ao roteiro. É uma dicotomia grande demais entre a história do ponto de vista do Gjorg e a de Diana e Bessian, e isso me tirou muito do livro. Quando paro para pensar sobre tudo que foi discutido nessa história, eu percebo que foi um livro incrível. Mas, quando paro para pensar na jornada de leitura, eu percebo que mais da metade dela eu achei chata e difícil de ler devido ao desinteresse nesses dois personagens. Mesmo assim, é um prato cheio para se conhecer um pouco desse país tão distante e diferente do nosso, ainda mais sabendo que o Kanun e esses costumes albaneses eram reais e, em alguns lugares mais longínquos, talvez até os dias de hoje, seguem pautando algumas famílias.
![]() |
| Montanhas Malditas, Albânia |
Assim, encerro a minha primeira viagem. Ter contato com a literatura albanesa aos olhos de Ismail Kadaré foi uma experiência muito interessante e que com certeza me deu um gás gigante para continuar essa jornada através dos próximos países. Vamos ver qual será minha próxima parada. A ideia é ir para um continente diferente, mas não sei para onde os ventos que agora sopram poderão me levar.
~Wil




Comentários
Postar um comentário