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Devaneios - Miniconto: A Última Piada

Seguindo a onda de criações semanais, de acordo com os desafios estabelecidos no grupo de criatividade, a atividade da semana foi um tanto quanto curiosa, e desafiadora. Ao invés de uma palavra, nos foi fornecido uma imagem. E dessa imagem, surgiu o miniconto abaixo. Espero que gostem.

***

— Meu filho, nem mesmo a mais poderosa das magias pode atrasar o abraço da Senhora do Silêncio - disse o rei Istar I, com uma voz débil e frágil, como se fosse uma escultura de areia seca, quebradiça ao suave toque do vento. Uma tosse rouca, repetida e abafada, se seguiu à frase dita pelo monarca. O lenço que ele posicionava em sua boca retornou salpicado de sangue.

Três dos mais poderosos magos do reino estavam no quarto real, ao lado de mais dois sacerdotes e três druidas, todos tentando, de alguma forma, retirar a mazela que exauria a vida do rei. Todos com semblante preocupado, suor permeando suas testas enquanto realizavam seus ritos. O príncipe Gaius, primeiro na linha de sucessão, estava ao lado de seu pai, segurando sua mão, acompanhando tudo de perto.

Os três magos, já ofegantes, pararam suas magias. Um deles iniciou:

— Majestade, creio que eu…

— Continuem tentando - respondeu Gaius entre dentes. Sua voz saiu esganiçada, tentando parecer mais firme do que realmente estava, como esperado do herdeiro do rei em uma situação de dificuldade.

— Mas, meu senhor, eu n…

— Não importa! Continuem tentando! - bradou o príncipe. Seus olhos começaram a ficar marejados. Sua respiração estava acelerada e a mão começava a ficar fria.

— Tudo bem, Tidus - disse o rei mais uma vez. - Vocês fizeram o bastante. Obrigado. Estão dispensados.

— Mas, pai…

— Gaius, é uma ordem do rei. Eles estão dispen…

Uma nova sequência de tosse irrompeu do peito do rei. O príncipe pegou uma compressa e começou a colocar na testa de seu amado pai. Os olhos do monarca estavam fundos, rodeados de olheiras. Sua aparência agora era de um homem muito mais velho que a realidade, com até alguns cabelos brancos salpicando por entre os longos cachos negros.

Com um aceno de cabeça, Tidus, o líder dos magos, se retirou com toda a comitiva de curandeiros, em passos desanimados e pesarosos. Após saírem, fecharam a enorme porta de carvalho e deixaram Istar e seu primogênito sozinhos.

O rei arfava, tossia, arfava novamente, tentando reencontrar uma certa estabilidade para então conversar novamente com seu filho. Gaius seguia segurando a mão de seu pai, vez ou outra trocando a compressa úmida em sua testa, molhando-a novamente em uma tina de cobre que estava ao lado do catre.

— Meu filho, você terá de ser forte. Não apenas por nossa família, mas por todo o reino.

Gaius via o peito de seu pai subir e descer, sua mandíbula tremendo com o esforço de colocar em palavras tudo que precisava.

— Pai, o senhor não vai morrer... Conseguiremos algum curan…

— Gaius - interrompeu o pai novamente. - Lembre-se de que um rei... não pode carregar apenas a própria dor... Haverá dias... em que você desejará abandonar tudo. Nesses dias... olhe para além destas paredes... O reino... continuará precisando de você... mesmo quando você não precisar mais dele.

A voz do monarca ia ficando frágil, fraca, quase como um sussurro, e quanto maior a sentença que ele pronunciava, mais energia era necessária para não se perder em uma sequência de tosse. E ele seguiu:

— Agora que você terá a coroa... filho... todos irão te bajular. Dizer aquilo... que você quer ouvir... Não deve confundir... obediência com lealdade... Você precisará tomar cuidado.

A cada conselho que recebia, um fino punhal penetrava o coração do príncipe, que lutava contra o impulso avassalador de entregar-se às lágrimas. Ele sabia que o pai o estava deixando, assim como sua mãe o deixara poucos anos antes. Ele ouvia atentamente cada um desses ensinamentos, mesmo tendo-os recebido anteriormente por meses a fio. Ouvia cada frase do seu pai como se fosse a primeira vez, tentando se manter firme, como o pai esperava dele.

— Meu último e mais importante conselho... pra você. Você tem que se cercar... daqueles que são leais. Sempre mantenha Lucius com você…

— O bobo? - respondeu o príncipe de imediato, estranhando tal sugestão do pai.

— Lucius lhe será o servo mais... leal que o reino pode lhe proporcionar. O único... em meio a um mar de bajuladores... que lhe dirá... a verdade. Mesmo que isso doa... Aprenda a reconhecer a verdade... justamente na boca daqueles que você preferiria não escutar.

O príncipe assentiu mais uma vez, entendendo o motivo de Lucius, o Bobo da Corte, sempre estar ao lado do pai, mesmo em momentos tão sérios. A maioria dos nobres da corte entendia tal ato como uma mera excentricidade do rei, e mesmo Gaius nunca havia percebido a motivação do pai. Mas a espontaneidade e indiscrição de Lucius permitiam ao rei ter um olhar mais sóbrio sobre tudo.

— Se os deuses... permitirem... estarei lhe olhando de onde quer que eu esteja... meu filho.

A voz embotada do rei, pontuada pelo subir e descer de seu peito, era regada com lágrimas de despedida de um pai em sofrimento. O príncipe, não mais segurando também essa torrente que exigia correr pelo seu rosto, abraçou o pai mais uma vez. E eles ficaram assim por um tempo. Tempo esse que Gaius e Istar desejaram durar por mais do que poderiam.

Ao distanciar-se do abraço, o príncipe enxugou as lágrimas. Seu pai fez uma última exigência:

— Chame Lucius aqui, por favor. Preciso falar... com ele.

Gaius assentiu. Levantou-se do dossel e pôs-se a caminhar em direção à porta. Ao sair, parou uma última vez para olhar a imagem frágil do rei sob a cama. A imagem frágil daquele homem que era a luz do reino, inspiração de um povo e exemplo para ele. Mesmo sendo jovem, o príncipe faria tudo ao seu alcance para estar à altura das expectativas de seu velho pai.

***

Alguns minutos após a saída do príncipe, a porta do aposento real se abriu novamente. O som de guizos ecoou intensamente pelo ambiente, extinguindo todo resquício daquele silêncio mórbido que se instaurara. A respiração de Istar estava um pouco mais controlada, após o esforço que haviam sido as últimas instruções para seu filho.

— Vejo que alguém estava com saudades. Tenho preparado um novo show para vossa majestade assim que levantar-se desse leito. Envolve uma nova música que andei compondo, que fala sobre como as orelhas de Lorde Maurice são tão longas que lhe permitiriam voar - disse o bobo.

A cada passo que ele dava, sua roupa emitia sons de sino, apitos e outros badulaques que eram sua assinatura.

Ele estava vestindo sua roupa mais comum. O macacão, com suas duas cores, metade verde-escuro, com estrelas amarelas espalhando-se pela perna, e a outra metade em um quadriculado vermelho e branco, que lembrava uma toalha de mesa de alguma família camponesa. Em seus pés, o par de sapatos pontudos e, em seu pescoço, uma gorjeira de tecido amarelo bufante. O característico chapéu, com uma pequena coroa coberta de guizos, pendia do lado esquerdo de sua cabeça, da mesma forma que ninguém saberia dizer como se mantinha preso ali.

— Ora, Lucius, espero que não esteja tentando perder a cabeça com tantos insultos.

— Evidente que não, majestade. Apenas gosto de ressaltar a beleza de cada indivíduo de maneira um tanto quanto excêntrica.

O bobo se aproximou e sentou-se no dossel, ao lado do rei moribundo.

— Não acredito que vai deixar um simples resfriado te derrubar assim, vossa graça. Não é de seu feitio. Minha avó tem uma receita de uma garrafada que é tiro e queda.

Ele dizia isso em um tom bem-humorado, mas, olhando diretamente em seus olhos, perceberiam que estavam sombrios. A gravidade da doença do rei era conhecida por todos, principalmente por seu grande amigo.

— Estou indo, Lucius. Preciso que esteja ao lado de Gaius.

— Êpa, espera aí, majestade. Acho que sei o que está te atrapalhando e irei ajudá-lo.

Ele fez algum movimento com a mão, levou-a até atrás da orelha do rei, como se estivesse tirando algo.

— Ahá, aqui está!

Ele fez um novo movimento e, puxando sua mão, estendeu-a abertamente, mostrando em sua palma uma bolinha amarela.

— Esse era o problema. Bolinite aguda.

O rei deu um sorriso breve, tendo visto aquela mágica várias vezes.

— Agradeço por tentar deixar isso mais fácil, meu amigo. Mas sabe por que te chamei aqui.

A voz do rei era cada vez mais fraca, mas, como a tosse havia dado uma leve trégua, ele conseguia falar de forma direta.

— Eles tentarão manipulá-lo, torná-lo ruim. Ele é muito jovem, precisará dos seus conselhos.

— Assim como eu manipulei vossa majestade por tantos anos? Está me pedindo algo ingrato, vossa graça.

O rei sorriu.

— Eu sei que posso não ter sido um bom rei, mas teria sido muito pior sem seus conselhos, Lucius. Sei muito bem que é o servo mais leal e o amigo mais fiel.

— Ah, entendi. Está criando toda essa atmosfera mórbida e triste para me fazer chorar? Pois devo adiantar-lhe que nem mesmo vossa majestade irá conseguir.

Era possível ver os olhos marejados do bobo.

— Quando eu me for, não o deixe sozinho.

— Não deixarei.

— Me prometa.

— Eu juro solenemente - disse ele, fazendo uma pose como um cavaleiro proferindo um juramento, mas de forma extremamente exagerada e caricata. - que jamais deixarei Gaius sozinho, nem mesmo quando ele me mandar ir embora.

— Ah, ele irá mandar.

— Eu sei. Ele é seu filho, e vossa majestade também me mandou... algumas vezes?

Ambos riram. Os olhos do rei, cada vez mais fundos, sua pele cada vez mais pálida.

— Acredito que minha hora está chegando. Preciso descansar - disse o rei, fechando os olhos.

O bobo então começou a se levantar, dirigindo-se para a porta.

— Lucius - chamou o rei. - Me conte uma última piada antes de sair.

Pela primeira vez, em anos, o bobo viu sua própria voz tremer.

— Peço perdão, majestade. Pela primeira vez, eu não tenho nenhuma para contar.

Ele saiu pela porta, o som dos guizos sumindo após ela se fechar, e o silêncio mais uma vez abraçou o quarto.

***

Poucas horas depois, naquela mesma noite, a Senhora do Silêncio visitou o rei Istar I. Conversaram por alguns minutos. Então, ela lhe estendeu a mão e levou-o junto de si.

***

— E se eu não conseguir? - perguntou o príncipe.

— Nem sempre o seu pai conseguiu também, majestade - respondeu o bobo.

Eles caminhavam, voltando do funeral do antigo rei. O bobo seguia vestindo roupas espalhafatosas e barulhentas, mas agora de um negro intenso. O príncipe também seguia com seu manto preto, com alguns arabescos dourados. A nova coroação seria no dia seguinte. Não havia nem mesmo tempo para ele viver seu luto.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não, mas é bom para aprender que os reis também são homens.

E seguiram caminhando em silêncio, o som apenas dos guizos marcando os passos dos dois, abraçados por um leve assobio de um vento de inverno que soprava.

Arte por Rodrigo M. Rodovalho


~Wil


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