| Foto: Nico Berríos |
Quando pedi para minha noiva escolher o próximo país do qual eu leria um livro, ela escolheu o Chile. Minha primeira opção era A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Mas, quando vi que era uma trilogia, escolhi Kramp, que um amigo já havia lido também este ano e tinha gostado muito. Sim, eu sei que a “trilogia” de Isabel Allende poderia ser lida como um livro único. Mas, sendo completista, como sei que sou, preferi não arriscar começar uma nova. Não agora, pelo menos. Deixa para o Wilker do futuro. E Kramp se mostrou uma escolha extremamente válida.
| Capa Livro: Kramp - Editora Moinhos |
Aqui temos uma história narrada por uma personagem chamada M. Aliás, essa é uma característica marcante da obra. Todos os personagens são identificados apenas por uma letra. M tem sete anos quando começa a acompanhar o pai, D, em suas viagens como caixeiro-viajante. D é um vendedor de produtos da marca Kramp, especializada em ferramentas, elementos de fixação, como parafusos e porcas, além de olhos mágicos e outros utensílios do gênero. Entre estradas, pequenas cidades, lojas de ferragens e hotéis, ela passa a conhecer um mundo muito diferente daquele que encontra na escola.
| Ilustração na capa da edição italiana do livro |
"No momento em que D viu Neil Armstrong dar o primeiro passo na Lua, pensou que, com determinação e o traje adequado, tudo era possível."
A escrita de Maria José Ferrada é muito fluida. Quase todo o livro é composto por parágrafos curtos e capítulos mais curtos ainda. Temos capítulos de meia página, para se ter uma ideia, e não ressalto isso como demérito, muito pelo contrário. Essa construção instiga o leitor a avançar cada vez mais, deixando a leitura muito dinâmica e direta.
“Recordo-me de que fui acampar. Saímos para olhar as estrelas e, utilizando o Cruzeiro do Sul como referência, expliquei aos meus companheiros que o que brilhava lá longe não eram estrelas, e sim tachinhas de três polegadas com as quais o Grande Carpinteiro havia pendurado tudo no céu, inclusive a gente. O que quero dizer é que cada pessoa tenta explicar o mecanismo das coisas com o que tem em mãos. Eu, aos sete anos, tinha estendido a minha e topado com o catálogo da Kramp.”
Se tratando de um livro curto e que relata o cotidiano, é difícil falar muito sobre a história sem dar spoilers, então falarei pouco para evitá-los. M precisa de poucas palavras para nos prender com sua visão infantil do mundo, mas também com a profundidade que existe na maneira como ela interpreta as coisas ao seu redor. Ao andar com o pai e vivenciar a sua rotina, ela passa a fazer analogias com o próprio catálogo de produtos Kramp. Desde relações interpessoais até situações do cotidiano, a presença dos produtos passa a integrar a sua forma de pensar.
| Foto: Markus Spiske |
Mas, quando se trata de sentimentos, esse livro conversa muito com o leitor. Podemos encontrar nas palavras de M a fragilidade de uma criança em meio a uma família marcada pela ausência da mãe e pela irresponsabilidade do pai, sobrevivendo em um ambiente hostil e cercado de incertezas durante a ditadura de Pinochet.
"— Eu sempre vou vender os produtos Kramp?
— Sempre é um dia muito longo — respondeu D.
E, como aquilo havia soado bem, ele anotou num guardanapo, enquanto me contava algo sobre um novo produto Kramp: uma lanterna à prova d’água com garantia para a vida toda, para iluminar “na mais absoluta escuridão”."
Kramp é um livro melancólico na medida certa e uma daquelas leituras que conseguem dizer muito sem precisar de muitas páginas. Quando terminei, fiquei com a sensação de que M havia me contado muito mais do que parecia enquanto eu acompanhava suas histórias. E talvez seja justamente aí que esteja a força do livro.
Comentários
Postar um comentário