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3ª Parada: Nigéria - Hibisco Roxo e as Fissuras do Silêncio

Abuja City Gate - Foto: Stuffedbox NG
É sempre fascinante poder enxergar o poder que a literatura tem, de nos inundar com sensações, sentimentos e até desconforto físico, somente com palavras. Retomando a minha saga de 197 histórias pelo mundo, abandonei qualquer tipo de ordem que fazia o mínimo de sentido na minha cabeça, e fui ler um livro da Nigéria. E como um dos expoentes da literatura africana, Chimamanda Ngozi Adichie tem muitas obras publicadas aqui no Brasil. Assim sendo, fui atrás de Hibisco Roxo, um dos livros mais renomados da autora. E o que eu encontrei nessa leitura, foi fora do padrão de qualquer outra que eu pudesse imaginar.

Capa: Hibisco Roxo - Companhia das Letras
Aqui, vemos o mundo pelos olhos de Kambili, uma garota de quinze anos que vive com os pais e seu irmão Jaja, em uma casa onde tudo é muito bem organizado. Seu pai, Eugene, é um homem rico, respeitado e extremamente católico, conhecido por ajudar os outros e por defender suas convicções com firmeza. Dentro de casa, porém, essa rigidez acaba se tornando algo bem mais pesado para os filhos e para a esposa.

A vida de Kambili começa a mudar quando ela e Jaja passam alguns dias na casa da tia Ifeoma, em Nsukka. Lá, eles encontram uma família muito diferente da sua, onde as pessoas conversam, discutem, riem e têm liberdade para questionar aquilo em que acreditam. É nesse ambiente que Kambili começa, aos poucos, a descobrir sua própria voz e a perceber que o mundo pode ser muito maior do que aquilo que conhecia dentro de casa.

Em meio a conflitos familiares, religião, tradições nigerianas e um país marcado pela instabilidade política, Hibisco Roxo acompanha o amadurecimento de Kambili e sua descoberta de que algumas mudanças podem começar com coisas muito pequenas.

Ajuda à Igreja que Sofre (ACN)
"Papa mudou de sotaque quando respondeu, adotando uma pronúncia britânica, como fazia quando falava com o padre Benedict. Ele se mostrou gracioso e ansioso por agradar, como sempre era com os religiosos, principalmente os religiosos brancos."

Foto: Fawaz Onakoya

A escrita da Chimamanda é extremamente impactante. Seguindo a história do ponto de vista de uma adolescente, vivendo em um ambiente completamente tóxico, sob as ordens de um pai controlador, tirânico e extremamente opressor, a história nos abraça com uma simplicidade que fere. O mundo aos olhos de Kambili é tão linear, tão roteirizado em todas as suas ações, que chega a nos doer. Sem nenhuma descrição extremamente gráfica, ou mesmo passagens cheias de explicações, a clareza e o direcionamento que a narrativa leva, pode chegar a nos causar enjoo. Mais de uma vez, precisei parar a leitura e respirar fundo antes de continuar, tamanho o impacto de situações passadas no livro.

Um retrato cru, mas simples, de um país onde temos pouco conhecimento, ou mesmo contato. Fala-nos muito sobre intolerância religiosa, sobre estruturas familiares, desigualdade de riquezas e sobre como a criação, pode afetar tanto uma pessoa, a ponto de ela cometer atos pavorosos, ainda crendo que está fazendo o correto.

"Ele representava algo perdido, algo que eu jamais tivera, que jamais teria."

Foto: Wyxina Tresse

Em uma palavra, Hibisco Roxo é uma leitura visceral, mesmo que simples, que mexe com nosso íntimo, nos faz repensar sobre muitos temas, não somente opressão. É uma experiência incrível, que mexeu comigo de uma forma que não esperava. Espero poder ler mais livros da autora, e até mesmo fora dos romances, os seus ensaios.

~Wil

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