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Expectativa zero, desconforto garantido: As Indignas, de Agustina Bazterrica

O que esperar de um livro quando o pegamos para ler sem saber nada sobre ele? Apenas o gênero e a autora. Comecei a ler o livro As Indignas, de Agustina Bazterrica, pois foi o escolhido para o Clube do Livro de Uberaba, no mês de outubro. A temática era Halloween e, quando ele foi escolhido, só sabia que era um livro de terror escrito pela autora de Saboroso Cadáver, que, por sinal, também não li. Nem mesmo li a sinopse. Apenas olhei para a capa, que, aliás, é uma baita capa, e então iniciei a leitura. E como terminei tão rápido? Bom, ele é bem curto, com 144 páginas, e no formato de uma espécie de diário, sem separação de capítulos, o que acabou me instigando a lê-lo de uma só vez.

Capa da edição brasileira, Tusquets Editores
Aqui, temos uma história que se passa em um mundo devastado por catástrofes ambientais, guerras e escassez de recursos, onde a sobrevivência se tornou uma luta constante para todos os seres vivos. É nesse cenário que acompanhamos o diário de uma mulher que vive na Casa da Irmandade Sagrada, uma instituição religiosa onde as mulheres são submetidas a uma rígida hierarquia, castigos brutais e uma fé cega que exige cada vez mais sacrifícios.

Enquanto tenta conquistar seu lugar entre as escolhidas, ela começa a questionar aquilo que aprendeu a aceitar como verdade, e a chegada de uma nova personagem, uma mulher enigmática que parece enxergar o mundo de uma maneira diferente, torna ainda mais difícil ignorar as contradições por trás dos muros da Irmandade.

Agustina Bazterrica nos guia a uma distopia sufocante sobre fanatismo religioso, violência, controle e deturpação em um mundo no qual a fé é uma forma de sobrevivência e também uma ferramenta de opressão.

Apenas uma imagem ilustrativa, créditos: Cash Macanaya
Confesso que não esperava absolutamente nada quando comecei esse livro e encontrei aqui uma história bem interessante até. Por mais que pareça carregado de discussões sobre fé, opressão e controle estrutural, nada disso é aprofundado, discutido, debatido. Temos apenas uma apresentação breve, do ponto de vista de uma personagem que está imersa nesse mundo caótico e apodrecido e nos deixa as informações escritas como um diário, algo que ela faz de forma escondida. Eu senti como quando me sento para ver um filme de terror, que normalmente até tem temas pesados, ou questionadores, em um plano de fundo, mas que na verdade servem apenas de base, pois o verdadeiro foco é trabalhar a situação da personagem e o quão aterrorizante é estar naquele ambiente em questão. Isso, aqui, é feito de uma forma bem interessante.

Toda a parte mística/religiosa que impregna essas páginas me deixou uma impressão bem próxima daquela de quando eu joguei Blasphemous. Por se tratar de uma distopia imaginada em um futuro da nossa realidade, toda a crença é estabelecida sobre uma deturpação gigantesca do cristianismo inteiro. E isso é explorado de forma bem gráfica, nas descrições das demais personagens, do ambiente ou mesmo dos rituais aos quais são submetidas. Foi algo que me prendeu muito. O paralelo que fiz com o jogo me deixou bem próximo de um mundo quase de fantasia sombria, e eu ficava bem curioso para ver o desenrolar da história principal. Mas, quando paro pra olhar como um todo, é realmente um livro mais raso, mais plano, sem tantas camadas exploradas, por mais que estejam ali presentes alguns elementos que permitiriam tais explorações.

Blasphemous, disponível para quase todas as plataformas.
Quando terminei a leitura, fui registrá-lo no Goodreads e encontrei uma série de pessoas que ficaram indignadas com o ritmo do livro e com os argumentos encontrados ali. Alguns relatavam se tratar de apenas uma desculpa para deturpar a fé, outros, que o objetivo era explorar a violência, outros ainda diziam que era só um amontoado de coisas ruins e bizarras. Isso me surpreendeu e me fez questionar o quanto a nossa expectativa pode impactar a leitura. Não somente a leitura, mas qualquer situação da vida.

Eu, por exemplo, quando me predisponho a ver um filme de terror, espero encontrar um que me provoque sensações de pavor. Não me preocupo tanto com as questões levantadas, se a história terá um bom final ou não, ou mesmo se haverá debates relevantes. E quando encontro um que traz tudo isso, é uma ótima surpresa, um agrado a mais. Em outras palavras, eu deixo minha expectativa o mais baixa possível e me permito ser surpreendido. Tento extrapolar esse pensamento para outras mídias também.

Como não sou um exímio leitor do gênero terror, não sabia o que esperar aqui. Encontrei um mundo bem intrigante, um pouco batido, talvez, mas muito impactante. A história, por mais rasa que tenha sido no desenvolvimento dos personagens, das discussões, dos temas por trás, ainda assim me proporcionou diversos momentos de horror, tensão e apreensão. Medo não. Dificilmente a leitura me desperta sentimentos de medo. Mas sem dúvida desconforto, a todo instante.

Não sei o que você pode esperar lendo esse livro. Se for um leitor de Saboroso Cadáver, que dizem ser um ótimo livro, talvez sua expectativa seja uma. Se for esperando um novo “O Conto da Aia”, como vi muitos outros dizer, talvez sua expectativa seja outra. O que posso garantir é que Agustina Bazterrica cria uma história extremamente macabra, que pode não te agradar, mas irá te deixar incomodado. Se isso será bom ou ruim, só poderá ser respondido por sua própria expectativa.

Comentários

  1. Amei a sua resenha, Wilker! Me fez refletir sobre vários aspectos e relembrar de algumas passagens. Gostei muito do formato diário, porque a autora soube trabalhar vários assuntos incríveis sem ficar explicando. Quando, penso eu, se escreve um livro que não seja didático, creio que o autor não tem obrigação a explicar o que se passa, porém eu entendo a frustração de uma expectativa quebrada. Gostei do livro porque é um diário e ela foi bem fiel ao formato. Quando relatamos nosso dia a dia não colocamos "hoje choveu, porque uma catástrofe que aconteceu lá no norte da Itália, sendo gerada por um experimento de uma bomba atômica que mudou os polos do planeta, bla bla bla, que quem mandou detonar foi o ditador fulano bla bla", nós escrevemos "estou cansada dessa chuva que não dá trégua, que molha tudo, que mata as plantas, que enche a minha casa de mofo. A minha avó está tossindo há dias..." E isso a autora fez com maestria, na minha opinião. A personagem é extremamente traumatizada e às vezes não é confiável. A religião, cristianismo, é proibida ali, tudo para alimentar o novo ego ditatorial de um homem covarde e asqueroso e uma mulher cruel. Todas aquelas mulheres são vítimas, quase como aquele experimento do cárcere. Eu gostei do livro porque tem muitas camadas e por ser tão pequeno é extremamente profundo.

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