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Devaneios: Chamada de 0000

Fonte: Tecnoblog
Luciano estava sentado em seu sofá da sala havia mais de quinze minutos, de frente para a televisão, observando as imagens, mas sem dar a mínima atenção. Seus ombros pesavam e as suas costas doíam. Desde que chegara em casa do trabalho, só tivera forças para se jogar no sofá, ligar o aparelho com o controle remoto e ficar esperando a vida acontecer. Desabotoou alguns botões da camisa, remexeu-se, encontrando uma posição ainda mais desconfortável que a anterior, mas sem ânimo para procurar outra mais cômoda.

Puxou o telefone do bolso, abriu o TikTok e começou a rolar seu feed, tentando preencher seu cérebro com aquela endorfina rápida. Ao fundo, ouvia-se a voz de um comentarista esportivo falando sobre a rodada de futebol. Luciano já não se importava com futebol havia tempos, mas nunca perdera o hábito de ligar em canais esportivos para ouvir os comentários de fundo. Todo dia, após o trabalho, era assim que ele recarregava o mínimo de sua bateria antes de tomar um banho, comer qualquer coisa para não ouvir o estômago reclamar de fome durante a madrugada e se deitar, pronto para que a rotina recomeçasse no dia seguinte.

Passou por um vídeo de pessoas fazendo bolo e, antes de o próximo vídeo iniciar, seu telefone começou a tocar. Na tela, no identificador, aparecia apenas “0000”.

– Ah, essas porcarias de golpe. Certeza que deve ser algum preso tentando roubar meu cartão – resmungou para si mesmo, enquanto clicava no botão de recusar chamadas. Seguiu vendo seus vídeos calmamente.

Poucos segundos depois, o telefone voltou a vibrar. O número “0000” era exibido no identificador. Tornou a recusar. “Eles começaram a ficar insistentes…”, pensou consigo. Quase imediatamente, o número retornou a ligação. Diante de tanta insistência, resolveu atender.

– Alô?

Do outro lado, um chiado distante, quase inaudível, soou em resposta. Ninguém falou, e o chiado era a única coisa que indicava que a ligação continuava ativa.

– Alô? Alôoooo?! – repetiu Luciano algumas vezes, já perdendo a paciência.

Após aguardar mais alguns segundos, percebendo que a única resposta que recebia era o chiado, ele desligou.

– Deve ser algum golpe novo tentando usar IA para roubar minha voz… Não devia ter atendido – resmungou.

Abriu a lista de últimas chamadas, e lá estava o recebimento de três chamadas do número 0000. Luciano deu de ombros, então olhou para o relógio no canto da tela. 21:47. Decidiu ver mais alguns vídeos antes de ir tomar seu banho e encerrar o dia.

***

No dia seguinte, Luciano chegou em casa pouco antes das nove. Tirou os sapatos, afrouxou a camisa e sentou-se de frente para a televisão. Atlético Mineiro e Botafogo se enfrentavam em uma rodada do Campeonato Brasileiro. Ele começou a desembrulhar um pacote de hambúrguer que havia pedido pelo iFood. Quando estava pronto para dar a primeira mordida, seu telefone começou a vibrar do lado de sua perna.

Ele olhou para a tela, e o identificador de chamadas mostrava o mesmo “0000” da noite anterior. Por um instante, pensou em não atender. Mas lembrou-se da insistência daquelas ligações. Então, pegou o telefone, deslizou o dedo sob a tela e levou o aparelho ao ouvido. Dessa vez, decidiu não dizer nada. Se fosse algum golpe para roubar sua voz, pelo menos não facilitaria o trabalho. Enquanto esperava que alguém do outro lado da ligação se manifestasse, o mesmo chiado abraçou sua audição.

Era distante, quase inaudível, mas parecia reverberar não apenas em seus ouvidos, como também em seu peito. Ele sentiu um leve puxão, algo próximo de um desconforto muscular em sua lombar. Por um instante, teve a impressão de ouvir uma risada muito baixa. Ficou na dúvida, mas logo descartou a possibilidade. Devia ser coisa da sua cabeça. Então, abruptamente, a chamada se encerrou.

Luciano olhou para o seu telefone, abriu o histórico de chamadas e lá estava, mais uma vez, o registro de “0000” na data de hoje. Porém, algo lhe saltou aos olhos. O registro da noite anterior havia desaparecido.

– Estranho, não me lembro de ter apagado o histórico de chamadas… Será que eu fiz isso?

Fechou e abriu o aplicativo algumas vezes, mas, como não viu nada de novo, deu de ombros, jogou o celular no sofá e voltou sua atenção ao lanche. Enquanto dava a primeira mordida em seu hambúrguer, o Botafogo abria o placar na transmissão da TV.

***

Na noite seguinte, Luciano chegou em casa no seu horário habitual. Seus olhos estavam pesados, os ombros puxando-o para baixo e a cabeça latejava em um ritmo descompassado. Havia sido mais um dia exaustivo, mesmo que não pudesse apontar nada de diferente nas suas atividades habituais que justificasse o cansaço que sentia. Pendurou as chaves no gancho de entrada, tirou os sapatos e foi até a cozinha para preparar algo para comer.

O relógio do micro-ondas ainda marcava 4:47, enquanto uma tigela de lasanha congelada girava em seu interior. Recostado no balcão da cozinha, retirou seu telefone e deu uma passada pelas notificações. Nada de importante. Lembrou-se das ligações das duas noites anteriores e abriu o histórico de chamadas. Seu coração acelerou ao perceber que o registro da noite anterior também havia desaparecido.

Ficou alguns minutos encarando a tela. Fechou e abriu o aplicativo algumas vezes, como fizera anteriormente, mas nada de novo surgiu. Tentou se lembrar de ter apagado o registro, mas não se lembrou de nada do tipo. Talvez estivesse dando importância demais àquilo. O micro-ondas apitou, e ele retirou a lasanha de dentro dele. Pegou um garfo e sentou-se em seu sofá.

Enquanto dava a quarta garfada e assistia a um episódio de Modern Family, que havia acabado de começar, sentiu o telefone vibrar em seu bolso.

– Mas que inferno! – resmungou, tirando o telefone do bolso. Ao ver aparecer no visor “Chamada de 0000”, apertou o botão de volume para interromper a vibração da ligação e devolveu o celular ao bolso. – Não vou atender essa bosta hoje!

A insistência durou algo em torno de três ou quatro chamadas, até que o telefone silenciou. Luciano se recusava a pegar o telefone para verificar as chamadas e terminou de comer sua lasanha, tentando focar sua atenção no episódio da série. Dessa vez, não pegou o celular nem para conferir se o histórico havia mudado.

Ainda assim, quando se deu conta de que não ouvia mais o telefone, sentiu um frio na barriga. Que diabos estava acontecendo? Quem será que estava brincando com sua cara?

Na série, ele deu risada de alguma piada com a cachorrinha Stella.

***

A manhã de sexta-feira seguia como qualquer outra. Luciano estava olhando para a tela do computador, esperando que um dos projetos carregasse. Tamborilava os dedos sobre a mesa, no ritmo da música que tocava em seu fone de ouvido. O som de conversas, telefones tocando e impressoras em atividade chegava aos seus ouvidos apenas como um ruído abafado, graças aos fones. Ele olhou para o relógio do computador e percebeu que mais da metade da manhã já havia se passado.

Foi quando o seu celular começou a vibrar sobre a mesa. Luciano olhou para a tela, preparado para recusar qualquer chamada inconveniente, mas parou quando percebeu o número exibido no visor:

0000

Por alguns segundos, ficou apenas olhando para o aparelho, sem entender por que aquela ligação ainda o procurava. Engoliu em seco, sentindo uma gota de suor, que não havia percebido antes, escorrer pelo rosto. Estendeu a mão para o aparelho e percebeu que tremia levemente. Levou o aparelho ao ouvido, esperando ouvir o mesmo chiado de antes.

Mas, dessa vez, havia algo além do chiado. Do outro lado, vozes conversavam ao longe, como se fossem parte de uma gravação. Luciano demorou alguns segundos para entender o que se passava, para compreender o que ouvia. Quando finalmente reconheceu aquelas vozes, sentiu o seu estômago se contrair e um gosto amargo subir por sua garganta. Era a sua própria voz.

– Peraí, tô esquecendo a chave!

Houve um ruído abafado, seguido de alguns passos e do tilintar de chaves. Então, houve um baque surdo, como se alguma coisa estivesse se fechando, talvez uma porta. Em seguida, a ligação se encerrou.

Luciano afastou o celular do ouvido, encarando a tela. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para o papel de parede de seu telefone e para a bagunça da tela inicial, com todos aqueles aplicativos espalhados. Ao longe, ouvia um zumbido, um murmúrio, até perceber que um dos colegas estava falando com ele.

– Ah, foi mal… O que você disse mesmo?

O colega repetiu a pergunta, e Luciano respondeu algo mecanicamente, sem ter a certeza de que havia entendido o que lhe fora perguntado. Voltou a olhar para o telefone. Abriu o histórico de chamadas, e o número estava lá. Imediatamente, clicou para retornar a ligação, tentando restabelecer o contato.

– Essa ligação não pôde ser completada. O número para o qual você ligou é inexistente.

Luciano apertou mais firmemente o aparelho e crispou os lábios. Guardou o aparelho no bolso dessa vez.

Talvez fosse algum tipo de trote. Alguém devia ter gravado sua voz em algum momento e agora a utilizava para aplicar algum golpe ou fazer algum tipo de brincadeira. Afinal, com tanta coisa disponível na internet, não devia ser difícil fazer algo assim.

Tentou voltar ao trabalho, mas uma pergunta continuava martelando em sua cabeça. Onde diabos haviam gravado aquilo?

***

Naquele mesmo dia, Luciano chegou em casa um pouco depois das nove. Acabou perdendo o primeiro ônibus, e isso acarretou em uma série de transtornos em seguida. Ao chegar na entrada do seu prédio, pisou em um cocô que estava na calçada e que não havia visto. O elevador estava estragado, e teve de subir até o oitavo andar pelas escadas. Chegou diante da porta de seu apartamento, segurando os sapatos nas mãos. Retirou as chaves do bolso, destrancou a porta e entrou.

O apartamento estava como o deixara naquela manhã, antes de sair. Pendurou as chaves no gancho, jogou a mochila num canto e foi até a lavanderia para guardar os sapatos. O cheiro do cocô amassado não saía do seu nariz. Mais tarde, lavaria a sola para poder usar os sapatos novamente no dia seguinte.

Luciano foi até a cozinha, abriu a geladeira e ficou olhando para o seu interior, tentando encontrar algo para comer. Percebeu, porém, que toda a tensão do dia lhe havia tirado a fome. Pegou uma lata de Pepsi que estava na porta e fechou a geladeira. O “tlec” da latinha lhe trouxe um conforto. Levou a lata aos lábios e bebeu.

Passara o dia inteiro tentando encontrar uma explicação para o que ouvira. Negou a possibilidade de que aquilo fosse algo inexplicável, procurando justificativas e imaginando mil e uma razões para alguém lhe mostrar aquela gravação. Peraí, tô esquecendo a chave! A frase se repetia em sua mente, como uma fita estragada.

Então, o telefone tocou novamente. O mesmo número 0000. O líquido que Luciano tinha na boca desceu por sua garganta, deixando uma sensação semelhante à de engolir uma bola de golfe. Colocou a latinha, ainda pela metade, em cima do balcão e atendeu o telefone.

– O que é que você quer?! – disse ele, com uma voz que, em sua cabeça, sairia firme, mas que tremeu e desafinou de uma forma que não esperava.

O chiado característico estava de volta, mas por poucos segundos. Em seguida, ele ouviu uma voz que não sabia dizer se era feminina ou masculina. Era como uma melodia fúnebre, um sopro gelado em uma noite silenciosa. Quase em um tom de sussurro, a voz ecoou em seu ouvido.

– Você chegou tarde hoje…

Foto: Arto Suraj

~Wil


Comentários

  1. Adoreiiiiiiii! Eu amooooo histórias com ligações misteriosas! Quando eu tava lendo o texto me lembrei de três coisas: o clipe de Crystal ball de Keane, o livro "nós já moramos aqui" e o meu conto (que não lembro do título, mas tá no meu livro) hahahaha. Ameii

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