Pular para o conteúdo principal

5ª Parada: São Tomé e Príncipe - Chá do Príncipe e o Sabor das Lendas

Santo António do Príncipe ©Scott Ramsay

Chegamos agora à 5ª parada dessa viagem literária pelo mundo. Quem diria que eu me manteria tão empolgado ainda no ano em que decidi. Eu mesmo não botava tanta fé, mas cá estamos. Dessa vez, voltando para o continente africano, em um dos países lusófonos. Paramos em São Tomé e Príncipe. E pesquisando a respeito dos autores, descobri Olinda Beja, uma escritora muito popular tanto dentro quanto fora do país. Olinda é conhecida por seus contos recheados com a cultura santomense, quase folclórica, além de seus versos e poemas.

Assim sendo, escolhi como a leitura da vez Chá do Príncipe, uma coletânea de diversos contos, todos recheados com a belíssima cultura santomense. Aqui, Olinda Beja dá voz a lendas regionais, personagens icônicos e até mesmo registros cotidianos de uma cultura muito viva. Mas, escolher Chá do Príncipe acabou se tornando um problema no quesito "escrever sobre" aqui no blog.

Capa Livro: Chá do Príncipe - Editora Imã

São 22 contos, todos eles bem curtinhos. E talvez o meu maior erro tenha sido ter lido esse livro todo de uma vez. Trata-se de um livro bem curto, com contos bem diretos e simples. Ler todos de uma vez pode ter sido muito injusto com a autora, e até mesmo com a cultura. Eu pretendo fazer uma releitura dele em um futuro não tão distante, mas dessa vez, lendo-o de forma pausada, como que um ou dois contos por dia, para dar mais tempo de as histórias ficarem em mim.

Justamente por se tratar de contos tão pequenos, se torna difícil de comentá-los um a um, visto que isso pode resultar em spoilers desagradáveis. Então, serei mais geral no meu comentário sobre ele. Mesmo sendo contos curtos, simples, esse livro exala aquele aroma folclórico. A presença da cultura do povo santomense cobre todas as páginas do início ao fim, além dos irmãos angolanos e até mesmo caboverdianos. E é tão vívida a forma como esse mundo tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximo, chega até o leitor, que é fantástica. É como se Olinda Beja fosse aquela avó, que reúne os netos ao pé de uma fogueira, e começa a contar as lendas que se passaram em sua infância, ou aquelas histórias que foram passadas ancestralmente, com uma escrita lírica, que deixa tudo mais intenso ainda.

Ressalto, entre os meus contos favoritos, alguns como A Tristeza de Konóbia, Soya, sempre Soya, A Professora da Fronteira, Chá do Príncipe que leva o nome do livro também, e meu favorito, Maria Cambuta. É triste não poder dizer mais, pois qualquer comentário além disso pode resultar em um spoiler. Então, encerro por aqui.

Erva-Príncipe - Creditos: Fabiano Souza - Folha BV

Chá do Príncipe não é um livro grandioso em extensão, mas é gigantesco em presença. Mesmo em poucas páginas, Olinda Beja consegue colocar um país inteiro, com suas lendas, seu povo, sua alma todos diante do leitor, e isso é algo que poucos autores conseguem fazer. Fica aqui o convite: se um dia cruzar com esse livro, não cometa o mesmo erro que eu cometi. Leia aos poucos, um conto de cada vez, e visite São Tomé e Príncipe devagar.

~Wil

Comentários

  1. Quero ler esse livro, a sua resenha foi maravilhosa e me deixou muito curiosa para mergulhar nessa cultura

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Uma Nova Vida em um Corpo de Aço, Diário Mental N de Rodrigo M. Rodovalho

Acredito que seja o sonho da grande maioria dos apaixonados pela literatura publicar a sua própria história. Eu mesmo, por sinal, tento sempre trabalhar em uma minha, mas acabo me autossabotando e desistindo no caminho. Imaginem a minha surpresa quando descubro que um companheiro de trabalho havia acabado de publicar, de forma independente, seu próprio livro. E digo mais: um livro de ficção científica, um dos meus gêneros favoritos. Não medi esforços e cobrei esse meu amigo até a publicação, além da versão física, também da versão digital (que atualmente é a que mais funciona para as minhas leituras) e iniciei a leitura assim que esteve disponível. Comecei, então, a jornada através do Diário Mental N, do meu amigo Rodrigo M. Rodovalho. Nessa história, acompanhamos o despertar de uma consciência, ainda completamente sem memórias, mas com alguns fragmentos de seus gostos e hábitos, em um laboratório. Nesse ambiente, a consciência vai percebendo que pertence a um cérebro humano que, media...

Devaneios - Miniconto: Minha Época

Participando de alguns exercícios de escrita criativa, vez ou outra aparecerei aqui com os resultados de minhas tentativas. Iniciando por esse miniconto. O tema era Nostalgia. *** A segunda mordida que Matheus deu naquele pequeno quadradinho doce, recheado de chocolate, o fez chorar. A primeira tinha sido extasiante. Seu cérebro demorou para processar a informação que suas papilas gustativas estavam recebendo. Quando deu a segunda, ele já estava preparado, mas trouxe algo que não podia ser previsto. Aquele sabor extremamente doce, com o chocolate hidrogenado grudando no céu de sua boca, enquanto a base do biscoito era triturada por seus dentes, era inigualável. Jamais tinha se esquecido dele. Chorou, pois algo dentro dele gritava sobre aquilo que agora era inalcançável. Ele, atualmente, era sufocado por uma rotina extremamente desgastante. Acordou de madrugada, mal tendo tempo de trocar suas roupas, ajeitar seu cabelo e escovar os dentes, e teve que correr para o ponto de ônibus para t...

Devaneios - Miniconto: A Última Piada

Seguindo a onda de criações semanais, de acordo com os desafios estabelecidos no grupo de criatividade, a atividade da semana foi um tanto quanto curiosa, e desafiadora. Ao invés de uma palavra, nos foi fornecido uma imagem. E dessa imagem, surgiu o miniconto abaixo. Espero que gostem. *** — Meu filho, nem mesmo a mais poderosa das magias pode atrasar o abraço da Senhora do Silêncio - disse o rei Istar I, com uma voz débil e frágil, como se fosse uma escultura de areia seca, quebradiça ao suave toque do vento. Uma tosse rouca, repetida e abafada, se seguiu à frase dita pelo monarca. O lenço que ele posicionava em sua boca retornou salpicado de sangue. Três dos mais poderosos magos do reino estavam no quarto real, ao lado de mais dois sacerdotes e três druidas, todos tentando, de alguma forma, retirar a mazela que exauria a vida do rei. Todos com semblante preocupado, suor permeando suas testas enquanto realizavam seus ritos. O príncipe Gaius, primeiro na linha de sucessão, estava ao la...