Pular para o conteúdo principal

Devaneios: A Moça da Janela

As resenhas estão sumidas daqui do blog, eu sei. Mas, como tenho me aventurado por esses mares da escrita, acabei encontrando neste espaço um lugar para trazer a outras pessoas esses pequenos exercícios que tenho realizado. Às vezes, até sinto que tenho mudado um pouco o tom do blog com esses textos que fogem das resenhas e opiniões, mas creio que seja por um bom motivo. Gosto de saber que minhas criações, mesmo que curtas ou sirvam apenas como pequenos exercícios criativos, estejam disponíveis para que outras pessoas possam conhecê-las.

Agora, participando de uma oficina criativa, a Liber Quest, tive um novo desafio: escrever um romance. Tudo o que consumo do gênero se resume, basicamente, a mangás e animes. Em outras mídias, consumo pouquíssimas obras de romance. O curioso é que, justamente nos animes e mangás, o gênero está entre os que mais consumo. Então, aceitei o desafio.

O segundo desafio foi manter o texto dentro do limite de 600 palavras e ainda encaixar as seguintes palavras: carta, chave, cicatriz e adeus.

Deixo vocês, então, com o resultado dessa brincadeira. Aproveitei também para fazer alguns desenhos.

A Moça da Janela

Aquele frio na barriga atingiu Guilherme, seguido pelo corriqueiro arrepio na espinha e pelo coração acelerado, quando fez sinal para o ônibus encostar. Umedeceu os lábios, ansioso por encontrá-la novamente. Seu peito parecia ecoar o ritmo da bateria de Panic! At The Disco que tocava em seu fone. Assim que o ônibus parou, subiu os degraus e cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça. Instintivamente, seus olhos percorreram o veículo à procura dela. Estava cheio, mas não lotado, com todas as cadeiras ocupadas. Ele buscava uma em específico.

Quase no meio do ônibus, ao lado da janela, estava uma linda garota. Os cabelos lisos e negros como a noite caíam sobre os ombros. Os olhos castanho-escuros eram protegidos por óculos de aros pretos discretos. Uma pequena cicatriz marcava sua testa. Assim como Guilherme, ela usava fones, alheia ao burburinho ao redor. Mantinha os olhos abaixados sobre um livro. Quando percebeu a parada em que estavam, porém, levantou os olhos, que por alguns segundos permaneceram presos aos de Guilherme.

“Como ela é linda”, pensou ele, quando ambos deram um sorriso envergonhado e interromperam a troca de olhares. Ele caminhou até ficar a uma distância nem tão longe, nem tão perto. Tinha vergonha de se aproximar. Aquele encontro silencioso acontecia havia mais de dois meses, e ele nunca reunira coragem para puxar assunto. Desde a primeira vez que a vira, passara a esperar ansiosamente por aqueles pouco mais de trinta minutos de viagem. Eram os melhores minutos de sua manhã. A cada vez que seus olhares se cruzavam, um breve sorriso bastava para deixar seu peito em brasa.
Sua cabeça girava, pensando em maneiras de conversar com ela, mas sempre era freado por algo que lhe dizia para adiar até a manhã seguinte. Talvez aquele olhar, antes de ela descer em sua parada, pudesse ser um adeus. Entre puxar assunto e se manter distante, seus pensamentos se digladiavam, fazendo suas mãos suarem enquanto segurava a barra de apoio do ônibus.

A moça fechou o livro. Deu mais um sorriso doce para Guilherme, que sentiu as pernas derreterem e uma escola de samba substituir seu coração. Pediu licença à senhora ao lado e deu sinal para o ônibus parar. Virou as costas para ele e dirigiu-se à porta. Guilherme ainda teria de ficar mais cinco minutos no ônibus. Por mais um dia, não conseguiria falar com ela.

Então, por um capricho do destino, uma chave caiu do bolso de trás da mochila que ela carregava, sem que percebesse. Guilherme correu, pegou-a e foi atrás da moça. Apertou o passo até alcançá-la e tocou seu ombro. Ela se virou assustada, mas, ao vê-lo, sorriu desajeitadamente e retirou o fone.
— Sim?
— Sua chave... Digo, você deixou cair essa chave - disse ele, encabulado, com a voz mais esganiçada e falhada do que imaginava.
— Nossa, muito obrigada. Você não tem noção do desespero que seria quando eu descobrisse que havia perdido.
— Ainda bem que consegui te alcançar a tempo.
Ela pegou a chave, e ficaram alguns segundos em silêncio. Até que ele arriscou:
— Er... qual é seu nome mesmo?
— Júlia - respondeu ela, animada, como se o fato de ele ter continuado a conversa a agradasse. - E o seu?
— Guilherme. Muito prazer, Júlia.
— Igualmente. Adorei seu chaveiro. - Ela indicou com a cabeça a mochila de Guilherme.
— Ah, sério? É de um joguinho de cartas que jogo com uns amigos. Você conhece?
— Não. Do que se trata?
E seguiram caminhando, Guilherme explicando para ela as regras do jogo.

Naquela manhã, a chave que ela perdera acabou abrindo a conversa que Guilherme nunca tivera coragem de começar.


Comentários

  1. É tão bom ver a nossa criatividade sendo colocada à prova, rsrs! Parabéns pelo texto e pelos desenhos!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Uma Nova Vida em um Corpo de Aço, Diário Mental N de Rodrigo M. Rodovalho

Acredito que seja o sonho da grande maioria dos apaixonados pela literatura publicar a sua própria história. Eu mesmo, por sinal, tento sempre trabalhar em uma minha, mas acabo me autossabotando e desistindo no caminho. Imaginem a minha surpresa quando descubro que um companheiro de trabalho havia acabado de publicar, de forma independente, seu próprio livro. E digo mais: um livro de ficção científica, um dos meus gêneros favoritos. Não medi esforços e cobrei esse meu amigo até a publicação, além da versão física, também da versão digital (que atualmente é a que mais funciona para as minhas leituras) e iniciei a leitura assim que esteve disponível. Comecei, então, a jornada através do Diário Mental N, do meu amigo Rodrigo M. Rodovalho. Nessa história, acompanhamos o despertar de uma consciência, ainda completamente sem memórias, mas com alguns fragmentos de seus gostos e hábitos, em um laboratório. Nesse ambiente, a consciência vai percebendo que pertence a um cérebro humano que, media...

Devaneios - Miniconto: Minha Época

Participando de alguns exercícios de escrita criativa, vez ou outra aparecerei aqui com os resultados de minhas tentativas. Iniciando por esse miniconto. O tema era Nostalgia. *** A segunda mordida que Matheus deu naquele pequeno quadradinho doce, recheado de chocolate, o fez chorar. A primeira tinha sido extasiante. Seu cérebro demorou para processar a informação que suas papilas gustativas estavam recebendo. Quando deu a segunda, ele já estava preparado, mas trouxe algo que não podia ser previsto. Aquele sabor extremamente doce, com o chocolate hidrogenado grudando no céu de sua boca, enquanto a base do biscoito era triturada por seus dentes, era inigualável. Jamais tinha se esquecido dele. Chorou, pois algo dentro dele gritava sobre aquilo que agora era inalcançável. Ele, atualmente, era sufocado por uma rotina extremamente desgastante. Acordou de madrugada, mal tendo tempo de trocar suas roupas, ajeitar seu cabelo e escovar os dentes, e teve que correr para o ponto de ônibus para t...

Devaneios - Miniconto: A Última Piada

Seguindo a onda de criações semanais, de acordo com os desafios estabelecidos no grupo de criatividade, a atividade da semana foi um tanto quanto curiosa, e desafiadora. Ao invés de uma palavra, nos foi fornecido uma imagem. E dessa imagem, surgiu o miniconto abaixo. Espero que gostem. *** — Meu filho, nem mesmo a mais poderosa das magias pode atrasar o abraço da Senhora do Silêncio - disse o rei Istar I, com uma voz débil e frágil, como se fosse uma escultura de areia seca, quebradiça ao suave toque do vento. Uma tosse rouca, repetida e abafada, se seguiu à frase dita pelo monarca. O lenço que ele posicionava em sua boca retornou salpicado de sangue. Três dos mais poderosos magos do reino estavam no quarto real, ao lado de mais dois sacerdotes e três druidas, todos tentando, de alguma forma, retirar a mazela que exauria a vida do rei. Todos com semblante preocupado, suor permeando suas testas enquanto realizavam seus ritos. O príncipe Gaius, primeiro na linha de sucessão, estava ao la...