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Devaneios: Santos, Sempre Santos!

Passou-se metade da oficina, e caminhamos para a etapa final. O texto de hoje é referente ao exercício cinco, em que deveríamos explicar uma ausência, falta, saudade, etc, mas sem dizer diretamente em palavras. Trabalhar a construção de emoções e memórias por meio de detalhes, e no bom e velho limite de 400 palavras. Tornei esse exercício mais pessoal, e, provavelmente, é o meu favorito até agora.

***

Santos, Sempre Santos!

Era noite de quarta-feira, e ele já estava com sua camisa branca do Santos, com aquele gigantesco patrocínio vermelho nas mangas. Não era original, nem mesmo daquelas réplicas de boa qualidade. Era uma comprada em um camelô da cidade, com o escudo já desfiando nas linhas e se soltando do tecido. Era velha, surrada, com diversos pontos desbotando, mas também era sua favorita, pois havia sido um presente. Aquela que dava sorte.

Não era um jogo importante, era mais um desses de meio de tabela, mas ele já sabia que seria mais um daqueles para passar raiva. Tentara diversas vezes abandonar essa vida de acompanhar futebol, mas sempre havia algo que o trazia de volta. A paixão pelo clube era como uma doença hereditária, passada de pai para filho, e uma vez que se instaurava no coração, não havia mais tratamento. O Santos lhe causava muita raiva, lhe tirava do sério, mas o amor ali envolvido era grande demais para ser deixado de lado.

A cada lance de perigo do time adversário ou a cada chance de ataque do seu time, ele soltava suspiros, reclamações e xingamentos. Típico de uma noite de quarta-feira, em que, antes, estas reclamações ecoavam na sala com duas vozes juntas. Hoje, assim como acontecia há quatro anos, a única voz que soava na sala, em reclamações ou comemorações, era a própria.

– IIIHUUUHUUUULLL! – Da sua garganta acabou saindo aquele grito de gol que ele copiou, sem perceber, após escutar por tantos anos. Dois a zero no placar. Uma exibição rara de bom futebol do time.

Em um lance de perigo do time adversário, ele se levantou e foi até a cozinha para beber água e não ver o lance em questão, impelido por um aperto no estômago. Enquanto a água gelada descia por sua garganta, ele se lembrou de como seu velho fazia da mesma forma. De como ele mudava de canal ao ter um lance de pênalti ou uma falta perigosa.

Esbravejou com todo o sistema defensivo do Santos quando levaram um gol bobo, criando um sufoco desnecessário para um jogo que já estava ganho. Tensão essa que só se dissipou ao apito final do juiz, garantindo a vitória do Peixe e tirando dele mais um grito de comemoração.

O sabor da vitória nunca mais foi o mesmo, assim como o da derrota. Mas sempre, em todo dia de jogo, ele sabia que existia algo ali, mais do que apenas uma partida. Mesmo que seus gritos ecoassem sozinhos, mesmo que suas comemorações fossem exclusivas, a cada vez que a bola rolava em um jogo do Santos, ele sabia que havia dois corações na torcida.

Acervo pessoal

Obrigado, pai!

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