O terceiro exercício da Oficina Liber Quest até agora foi o mais complicado. Sei que disse no anterior sobre como havia sido desafiador, mas esse de agora me cobrou muito. Era uma situação completamente fora de qualquer expectativa que eu pudesse ter, um diálogo entre um autor, e uma outra pessoa. E já confesso que de todos que desenvolvi até agora, foi o que menos gostei. Mas, quero trazer todos aqui, não só os que tenha gostado. Então, deixo vocês com o resultado, e encontro vocês no próximo!
***
A Chama do Coração
O som de diversas vozes despreocupadas em diálogos frívolos se somava aos sons produzidos na cozinha e criava um ambiente aconchegante que acalmava o coração de Ulisses e o ajudava a se concentrar. Ele sempre odiou o silêncio, e aquele era o ambiente perfeito para suas criações. Sempre que a editora encomendava um novo volume, procurava pela cidade um café como aquele, onde se sentava e trabalhava, as letras esvaindo-se por seus dedos e tomando forma em seu notebook.
O cheiro do grão em contato com a água fervente se espalhava por todo o ambiente e deixava aquela sensação ainda mais acalentadora. Seu cérebro só funcionava assim. Já havia três semanas consecutivas que frequentava a mesma cafeteria. Poucas pessoas o reconheciam ali, e ele tinha privacidade para trabalhar.
Levou sua xícara aos lábios e bebericou seu café. Estava doce, como ele gostava. Voltou então a escrever seu romance.
– O senhor é Ulisses Costa, não é? – uma voz trêmula acabou por tirar o homem de seu trabalho.
“Ótimo”, pensou ele amargamente.
– Sou, sim – respondeu ele, erguendo os olhos para ver de quem vinha a voz.
Uma jovem moça, com o avental do próprio café, estava parada diante dele.
– Posso te ajudar?
– Uau, eu não acredito. Eu… demorei para perceber, sabe? Eu sou muito sua fã! Demorei a criar coragem para vir falar com o senhor.
A jovem tremia, tanto na voz quanto no corpo. Ela tentava controlar sua entonação, com algumas pausas para não transparecer tanto nervosismo. Ulisses pôde perceber que ela segurava nas mãos um livro surrado, com a capa amassada nas bordas e páginas amareladas.
– Eu não… não quero incomodar, o senhor está trabalhando… mas… é que… o senhor me daria um autógrafo? – Quando ela estendeu o exemplar, ele se assustou.
– Caramba, As Estradas de Shankar? – um sorriso brotou em seu rosto. – Esse é velho. Imaginei que ninguém tivesse lido.
– Nossa, esse é o meu favorito. Digo, não que eu não goste das romantasias que o senhor tem escrito atualmente, mas esse é incrível! Nenhum deles nunca o superou.
Ele pegou o livro, passando a mão sobre a capa. Ficou alguns segundos admirando o desenho. Aquele havia sido o motivo de ele ter se tornado escritor. Amava viver em mundos fantásticos, ler histórias que o transportasse para outros universos, repletos de magias e criaturas.
O resultado após a publicação de As Estradas de Shankar, na verdade, foi desastroso. O livro vendeu pouquíssimas cópias, um verdadeiro fracasso. Mas a editora disse que havia potencial nele e insistiu para que continuasse escrevendo, desde que tentasse criar histórias mais românticas.
Seguindo esse conselho, começou a escrever histórias românticas com a fantasia como plano de fundo, e o resultado foi avassalador. Um sucesso de vendas e exposição. A fama de Ulisses cresceu exponencialmente, e ele começou a publicar livros e mais livros a pedido da editora. Já estava havia alguns bons anos no mercado e até mesmo havia se esquecido de As Estradas de Shankar.
– Eu já havia até me esquecido dele. Você gosta mesmo? É raro encontrar pessoas que tenham gostado – disse ele, abrindo a capa para realizar o autógrafo.
– Tá brincando? Se eu gosto? É meu livro favorito. Eu tenho até uma tatuagem.
A moça estendeu o braço, mostrando a frase gravada em seu antebraço:
“Nenhuma escuridão é eterna para aquele que carrega uma chama no coração.”
– Deus, que vergonha. Eu realmente escrevi isso? – Ulisses disse com um sorriso amarelo.
– Esse livro esteve comigo em um momento muito difícil da minha vida. Ele significa muito para mim.
Ele pegou uma caneta e se pegou lembrando de quando escreveu aquele livro. Também estava passando por um momento turbulento, e aquele universo que havia criado fora seu companheiro. Ele o havia abandonado em troca do sucesso e de escolhas editoriais, mas sabia do peso que aquela história tinha para ele.
Começou a fazer sua assinatura, deixando um breve recado para a fã que acabara de conhecer.
– Muito obrigado pelo carinho, er… como você se chama mesmo?
– Maria.
– Muito obrigado, Maria – disse ele, terminando o autógrafo e escrevendo o nome da jovem. – Eu tenho em mente uma continuação para essa história. Quem sabe eu não a escreva?
Os olhos dela se iluminaram, e ela deu alguns pulinhos enquanto pegava o livro de volta.
– Eu sabia! Sabia que a história não ia acabar assim!!!
Ela se recompôs.
– Muito obrigada! E, mais uma vez, desculpe atrapalhar.
– Imagina. Eu que tenho que agradecer.
Ulisses não esperava, mas naquele breve encontro, aquela moça havia feito reascender nele uma chama que estava quase apagada havia anos.
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