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Devaneios: O Futuro Era Mais Distante

Iniciamos aqui hoje, uma nova categoria de posts no blog. Posts que não estão necessariamente ligados à uma resenha, ou comentários sobre alguma obra. Serão textos mais intimistas, pessoais e despretensiosos. Podem ser chamados de crônicas? Não sei, creio que não. Talvez devaneios apenas seja um termo mais apropriado. Então, vamos lá.


Definitivamente, eu tenho medo dos 30 anos. Um marco que agora vejo ali, virando a esquina, e que, de alguma forma, tem me assustado. Algo que nunca havia acontecido, nunca havia me preocupado… Ter ideias, sensações e impressões a respeito de idade sempre foi insignificante pra mim. O tempo sempre foi algo irrelevante, e essa contabilização não era enxergada por mim além de números. Um conjunto insignificante de números, que nada dizia, na verdade.

Não sei quando essa chave virou, mas agora me assombra. Talvez seja o amadurecimento que bateu na minha porta e me falou: “Parabéns, você não é mais uma criança.” Demorou pra chegar, não é, senhor amadurecimento? Quando me pego pensando a respeito disso, eu me questiono sempre: será que ele demorou realmente, ou chegou cedo demais, a ponto de eu nunca perceber que ele estava ali do meu lado? O fato é que, mais do que nunca, recentemente eu tenho pensado muito sobre estar fazendo 30 anos. É um marco. A partir de agora, a sociedade entende a minha pessoa como um adulto completo. Já não faço mais parte dos “jovens” quando noticiários, revistas, jornais ou conversas simples fazem referência a eles. A partir de agora, eu estarei cruzando a linha na qual deixo de ser uma pessoa com um futuro promissor e passo a ser aquele que chegou no objetivo.

Tendo conversas no trabalho a respeito de idade, certa vez ouvi dizer que eu estava chegando no meu “ápice”, onde emocional, financeiro e físico estariam no seu auge. Era para eu aproveitar, pois estaria em meu melhor momento. Que melhor momento seria esse? Onde está esse checklist de itens que configuram o auge de alguma existência? Com propriedade, posso dizer que não estou no meu “ápice” físico. Estou mais gordo do que gostaria, não pratico exercícios de forma regular, além de um futebol de fim de semana. Se tratando de finanças, com toda certeza, não é, espero eu, meu auge também. Já tive momentos piores, é fato, mas ainda não estou em uma posição confortável que possa ser considerada a melhor que já vivi. Se tratando do emocional, talvez seja o momento em que esteja mais próximo de um equilíbrio, mas, ainda assim, não consigo assumir que seja o auge. Então, o que ditaria isso?

Quando reflito sobre essa situação, eu vejo que essa análise sobre quando é o melhor momento é muito relativa e estará muito mais relacionada ao passado do que ao presente. Só poderemos verificar que estivemos em um patamar melhor quando olhamos de uma perspectiva pior. Claro que falo isso da minha perspectiva quanto a identificar o meu auge. Mas é, indubitavelmente, o momento em que a sociedade espera que estejamos no topo de nosso desenvolvimento. É o momento em que começamos a ver nossos amigos de infância, colégio e faculdade realizando suas conquistas materiais. Quase todos já com apartamentos comprados, carros novos, filhos, esposas e maridos, empregos estáveis. Tudo aquilo que é enxergado como o grande sonho de todos. Isso nos é ditado como sucesso, desde sempre.

Me colocando nesse parâmetro de comparação, não, não obtive ainda sucesso. Não tenho casa própria, meu carro ainda é o que herdei do meu pai, filhos eu tenho cada dia ficado mais distante da ideia de tê-los e, profissionalmente, ainda sou muito frustrado. Em compensação, sinto que, de acordo com os objetivos que eu tracei, não esteja tão fora do que imaginei. Porém, essa força que a sociedade, a comunidade e a internet exercem sobre nós mesmos é tão forte, tão intensa, que eu mais de uma vez já me peguei pensando: será que amadureci?

Quando eu olho para o que sou hoje, eu continuo sendo o mesmo de 15 anos atrás. Eu encontro muito da minha identidade nos meus hobbies, e todos eles permaneceram intactos. Ainda sou o mesmo que era apaixonado por animes e mangás. Continuo fanático por videogames e livros. Coleciono quadrinhos ainda hoje, gasto dinheiro com joguinhos eletrônicos e com literatura de ficção e fantasia. Hábitos que são vistos na sociedade como coisas de criança ou adolescente.

Cheguei a ter uma “leve discussão” com um ex-colega de escola, em que foi levantada essa questão de que videogames, gibis e animes eram coisas de adolescente, e que só conheceríamos a vida de verdade quando tivéssemos um filho. Não consigo enxergar a lógica estabelecida entre “só ser um adulto realizado” quando completar a quest “ter um filho”. Já tive tantas situações em que a minha maturidade foi colocada à prova, tantas questões que são levantadas no cotidiano e que testam se somos já adultos ou não, que é difícil traçar esse paralelo apenas com relação à paternidade.

Mas não vou mentir que, quando sou colocado à prova a respeito disso, principalmente dos meus hobbies, eu não fique balançado. Será que a sociedade cobra, de uma maneira muito injusta, o que é ser adulto, ou meus hobbies são realmente um escapismo dessa rotina? Será que são apenas hipócritas que não conseguem dar vazão aos seus hobbies devido às suas responsabilidades, ou sou eu que tenho uma resistência a “crescer”?

São perguntas que não tenho resposta, mas para as quais adotei uma como verdade: meus hobbies são parte do que eu sou, parte da minha identidade. Talvez sejam realmente uma forma de escapismo da realidade opressora da vida adulta, mas, ainda assim, são parte do que me constrói. Ainda que eu me questione sobre estar ficando velho, sobre se é ou não socialmente aceito assistir super sentai com mais de 30 anos, jogar horas e horas de pokémon ou apenas comprar mais uma coleção de batman, ou algum mangá da shonen jump, não deixarei de fazê-los. São questionamentos que eu tenho certeza de que não me deixarão tão cedo, mas que, bem possivelmente, serão substituídos por outros que também questionarão as minhas essências e, sem dúvida, eu serei uma pessoa diferente quando eles chegarem. Porém, por mais diferente que eu seja, a sensação que fica é que essas partes de mim jamais deixarão de existir.

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