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Mais um livro, mais uma sanderlanche: Warbreaker, de Brandon Sanderson

Minha carteirinha de fanboy do Brandon Sanderson está emitida, ativa e renovada, como nunca esteve antes. Eu sou completamente incapaz de desgostar de qualquer história que esse homem cria. É incrível como eu consigo gostar de cada detalhe, até mesmo daqueles que o pessoal costuma reclamar. É, sem dúvidas, o meu autor favorito, e esse ano estou quase fazendo um “Year of Sanderson”, lendo vários livros dele, até mesmo em sequência, coisa que eu não costumo fazer com nenhum outro autor.

Correndo atrás de alguns que eu deixei parados, finalmente li Warbreaker, um livro único em meio ao gigantesco esquema de pirâmide que é a Cosmere. E eu chamo de esquema de pirâmide porque, mesmo quando você lê um livro único, como Warbreaker ou Elantris, ainda assim eles são partes fundamentais de um grandioso universo que está sendo construído pelo nosso Sanderson. E convenhamos, essa história de “é um livro único, você consegue ler só ele sem precisar entrar na Cosmere” é balela. Sabemos muito bem que você ficará instigado e irá atrás de todos os outros livros dele.

Em Warbreaker, acompanhamos duas princesas de Idris que acabam tendo seus destinos completamente alterados. Vivenna foi criada durante toda a vida para se casar com o Deus-Rei de Hallandren, um reino que há gerações é visto como inimigo de seu povo. Porém, quando chega o momento de cumprir este acordo, seu pai decide enviar sua irmã mais nova, Siri, em seu lugar.

Sem qualquer preparo para assumir esse papel, Siri é levada para uma corte cheia de deuses vivos, intrigas políticas e segredos, enquanto Vivenna parte para Hallandren decidida a encontrar uma maneira de salvar a irmã e impedir que uma guerra entre os dois reinos, que parece inevitável, se torne real. Em meio a tudo isso, entram em cena Vasher, um homem misterioso carregando uma espada falante, e Canto-de-Luz, um dos deuses de Hallandren que parece muito menos interessado em ser um deus do que deveria.

Vivenciamos uma história sobre duas irmãs seguindo caminhos completamente diferentes daqueles a que foram destinadas, em um mundo onde a magia está ligada às Respirações humanas e onde ninguém parece ser exatamente aquilo que aparenta.

Ler Warbreaker logo após ter terminado o combo Palavras de Radiância e Edgedancer foi uma experiência muito interessante, porque aqui vemos um outro Brandon Sanderson, ainda em algo próximo ao início de carreira, mas que já tinha pré-estabelecido ali muito do que ele planejava para os seus livros. Como característica de todos os seus trabalhos, vemos um sistema de magia fantástico e único, que deixa aquele gostinho de “preciso mais disso”. Mas digo que foi uma experiência interessante, pois é um livro completamente diferente de Palavras, por exemplo. Em Os Relatos da Guerra das Tempestades, principalmente no livro dois, temos o ritmo mais frenético que já presenciei em obras dele. É uma sequência de acontecimentos tão incríveis que faz o livro todo parecer um thriller de mais de 1200 páginas, em que não é possível parar de ler, muito devido à ação, além de desenvolvimento de personagens, claro.

Já em Warbreaker, o trabalho foi completamente o oposto. O livro todo gira em torno desse conflito político, da tensão entre Idris e Hallandren, além de todos os problemas causados pelas escolhas dos seus líderes, bem como das dificuldades da corte dos deuses e suas atitudes. É um livro completamente oposto ao ritmo frenético que ele estabelece em Roshar. O que não é algo ruim, pelo contrário, dá uma visão completamente diferente do que o Sanderson é capaz de fazer. Aqui, o foco são os personagens e suas mínimas atitudes, podendo repercutir de maneira completamente intensa em meio a essa animosidade.

Mas eu compreendo quem não gosta dele. É, sem dúvidas, um livro mais lento, com um ritmo bem diferente do Brandon Sanderson que consumimos atualmente. Podemos ver aqui que sua capacidade criativa já estava a mil, mas o desempenho na escrita ainda estava mais bruto, menos refinado e certeiro do que é no presente. É muito próxima da sensação que tive lendo Elantris, seu primeiro trabalho publicado. Senti falta, sim, de um pouco mais de desenvolvimento de alguns personagens, pontos de história e até mesmo do conceito do sistema de magia, mas é compreensível em um livro pensado para ser um livro único. Ainda assim, eu sinto muito que esse é um dos raros casos em que o livro sofre de não ser uma série. 

Falando dos personagens, eu demorei para aceitar a Vivenna. Mas, com o passar dos capítulos, vi que tudo aquilo que me irritava nela, na forma como ela era construída ao longo da história, estava interligado à maneira como ela foi criada, para ser entregue ao reino inimigo, para esse casamento forçado, e que, ao tirá-la daquilo que ela viveu para ser, ela também se perdeu e precisou se encontrar. Já a Siri foi uma personagem encantadora do início ao fim. Adorava acompanhá-la e vê-la evoluir, mas sem perder a essência tão irradiante que ela possui. Canto-de-Luz, talvez o meu personagem favorito. Muita carga emocional em cima desse deus que não quer ser um deus, e acompanhar a sua saga de descobrimento é maravilhoso, coroado com um final extremamente digno. Vasher e Sangue da Noite também me despertaram bastante curiosidade, mas senti falta de vê-los mais. Eles aparecem muito pouco comparados com os demais, e isso acabou reforçando aquela sensação de que esse é um livro que poderia se beneficiar de uma continuação.


E talvez seja justamente essa a minha maior vontade ao pensar em um possível retorno a esse mundo. Eu gostaria de ter mais sobre o sistema das Respirações, os Cinco Eruditos e até mesmo sobre a corte dos deuses de Hallandren. Fico curioso com o funcionamento dos sem-vida e com as outras regiões desse mundo tão colorido. Falei pouco sobre isso, mas é fabulosa a maneira como as cores brincam em torno dessas páginas e acabam por saltar aos nossos olhos. O próprio Sanderson sabe disso e já nos disse que pretende voltar a esse mundo para contar outra história, que inclusive já tem um nome prévio: Sangue da Noite. Espero que ele volte, sim. Espero poder ver mais também de um sistema de magia tão rico, mas que vimos tão pouco na famosa “ação” que temos presente dentro das “sanderlanches” dos finais dos livros dele.


Enfim, um livro sólido, que expande muito bem os nossos horizontes da Cosmere, nos apresenta personagens incríveis, um sistema de magia muito intenso e colorido e nos mostra que o Sanderson sabe o que está fazendo com o seu universo, desde muito antes de imaginarmos. É deixar o homem trabalhar e construir cada vez mais histórias que nos impactam tanto. Aquelas histórias que, ao fechar o livro, soltarei mais um suspiro e direi: “É por isso que eu amo tanto livros de fantasia, e é por isso que eu amo tanto o Brandon Sanderson.” Jornada antes do destino.

~Wil

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