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O Simples e o Sublime: Qual Valor do Cotidiano? - O Homem Que Passeia, de Jiro Taniguchi

    É extremamente complicado quando temos contato com algum autor ou obra pela primeira vez e somos impactados negativamente. Normalmente, após uma impressão ruim, seja pela qualidade da obra ou por fatores externos que possam afetar a experiência, criamos uma barreira difícil de transpor. Infelizmente, tive essa barreira com Jiro Taniguchi.

    Meu primeiro contato com o autor foi através do título As Crônicas da Era de Gelo, publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim, em dois volumes. Comecei a leitura empolgado, achando a arte dele muito linda e expressiva. A história? Uma ficção científica bem interessante, com personagens legais. Tudo que uma boa história poderia pedir, certo? Fui cativado logo no início e estava adorando. Porém, ao chegar nos últimos capítulos, já achava estranho, pois havia diversos subplots e pontas soltas para serem fechadas, e a quantidade de capítulos parecia insuficiente para concluir tudo o que o autor tinha proposto. E realmente era. O final dessa obra é um corte abrupto em tudo que estávamos acompanhando, deixando a sensação de que, ou o mangá foi cancelado, ou o autor simplesmente desistiu de tudo que estava construindo naquele mundo. Um final muito triste para algo que havia começado tão bem. Essa experiência me amargou bastante.

    Mas, devido ao início promissor que o autor havia mostrado e todo o trabalho que ele conseguiu desempenhar no começo do mangá, voltei às suas histórias, com o tão aclamado Em Um Bairro Distante, também publicado no Brasil pela Pipoca & Nanquim. Novamente, o autor traz aqui um começo interessante, com um adulto enfrentando questões pessoais que afetam diretamente a convivência em sua casa. Não vou me estender muito ao falar sobre o mangá, pois ele já tem resenha aqui no blog, feita por outro colaborador. Eu, como um adorador de histórias slice of life, achei que ali eu conseguiria tirar o gosto amargo que a obra anterior havia deixado. Como disse no início, é complicado quando somos impactados negativamente na primeira leitura. Quando isso se repete na segunda, automaticamente se cria um preconceito baseado em poucas experiências. Após ler o final desse mangá, senti muita raiva do Taniguchi. Muita raiva mesmo. Mais uma vez, aquela impressão de cansaço antes do final e a conclusão precipitada surgiram. E eu comecei a pensar que isso era uma constante em seus trabalhos.

    Eu jamais saberei dizer o que me fez insistir em ler mais um mangá dele. Jamais conseguirei chegar a uma conclusão definitiva sobre o que aconteceu para eu continuar insistindo, depois de tanta raiva que senti. E, ainda bem, insisti. O Homem Que Passeia, publicado no Brasil pela editora Devir, foi o mangá que mudou tudo, o meu terceiro contato com Jiro Taniguchi.

Capa da edição brasileira de O Homem Que Passeia, Editora Devir

    Quando mencionei anteriormente que fatores externos podem interferir em como consumimos uma obra, minha experiência com esse mangá é a prova cabal disso. Não há muito o que falar sobre a história em si. O próprio nome traz um resumo perfeito do enredo: é sobre um homem que, ao voltar do trabalho para casa, muda seus trajetos conforme o vento sopra ou sua vontade muda, simplesmente observando o seu redor e a interação das pessoas com o meio em que estão inseridas. Uma história simples e direta, mas que transborda sensibilidade e delicadeza, nos mostrando como é fácil perceber a beleza do mundo nas pequenas coisas.

    A arte de Taniguchi tem uma característica marcante de ressaltar o ambiente e os cenários. Falar sobre como é uma arte linda é chover no molhado. Se você já acompanha mangás, certamente conhece o autor e sabe do que estou falando. Se não teve contato com ele antes, com certeza já ouviu alguém elogiá-lo. Se nunca ouviu falar, deixarei algumas páginas de exemplo aqui, mas, por favor, permita-se conhecê-lo.


    
    Mas, como eu dizia antes de divagar sobre a arte, o nosso meio afeta nossa compreensão da obra. Antes de ler esse mangá, eu estava vivendo como a maioria das pessoas hoje: uma correria imensa, com a necessidade de realizar tudo da maneira mais rápida possível e a sensação de estar sempre atrasado. Milhares de coisas para fazer ao mesmo tempo, com a intensidade das ações do cotidiano sufocando qualquer perspectiva de simplesmente viver. Vivemos constantemente esse atropelo dos dias, com a sensação de que tudo está passando rápido demais, sufocando-nos, e nem percebemos quando a manhã já virou noite. Dedicamos todo o nosso esforço ao trabalho, aos afazeres domésticos, e nos esquecemos de que há uma vida a ser vivida, um mundo vasto e cheio de coisas a serem sentidas. Mas, na correria do trabalho e da vida adulta, essas coisas se perdem, ou são descartadas quando comparadas às necessidades do dia a dia. Nos deixamos de viver, propriamente dito, apenas enxergamos os dias passarem.

    Então, dediquei um tempo para ler esse mangá e... uau... ele me impactou de uma forma que não esperava. Eu estava esperando mais um mangá de Taniguchi com um final apressado e abrupto, mas não. Nesta obra, ele nos guia por pequenas passagens do personagem enquanto volta do trabalho, e ao mudar seus itinerários, encontra uma maneira de ver o mundo ao seu redor de forma diferente. Ele encontra beleza em pequenos detalhes, destacando momentos da sua rotina massante e transformando-os em algo especial. Em um determinado capítulo, por exemplo, o protagonista (que nem lembro se tem nome ou sequer é citado, mas afinal, nem importa) desce do ônibus algumas quadras antes e se dirige à piscina pública, que obviamente estava fechada por já ser tarde da noite. Decide então pular o muro e dar um mergulho noturno, contemplando o céu da cidade. Um exemplo simples, mas que demonstra o tipo de situação encontrada neste mangá.

    Acompanhamos um personagem caminhando por vários lugares, onde ele se reconecta com coisas do passado, faz projeções para o futuro e, mais simplesmente, vive o presente. Ele aproveita o momento e percebe que, às vezes, a mais simples concha encontrada enterrada em casa pode proporcionar um momento sublime, mas que, muitas vezes, na efemeridade dos nossos dias, ignoramos ou não damos a devida atenção.



    Poucas obras podem ser consideradas divisores de águas em nossas vidas, aquelas que nos trazem iluminações ou situações que mudam nossa forma de agir e pensar. Posso dizer que O Homem Que Passeia foi uma dessas obras para mim. Não tenho dúvidas de que essa reflexão pessoal sobre o momento da minha vida influenciou muito a maneira como recebi essa história, e provavelmente é algo tão pessoal que você pode não percebê-la da mesma forma. Mas, ainda assim, te faço um convite: venha ler essa história. Venha conhecer a beleza do cotidiano que Jiro Taniguchi nos oferece e permita-se enxergar no mundo ao seu redor o quão bela é a vida.

~Wil

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