Obs.: Vou colocar esta observação antes de tudo para ninguém me incomode: eu li o mangá, não vi o anime e, na verdade, eu quase não vejo anime. Se o anime tem como fonte original o mangá, possivelmente eu vou ler o mangá, então vou reclamar do mangá. Dito isso, continuando…
Seja bem-vindo, caro cliente! Por favor, sinta-se à vontade para se sentar em qualquer lugar confortável da livraria e acomode-se bem, porque hoje vou comentar sobre uma obra de um jeito um pouco diferente. Não sei se será uma recomendação, mas queria falar sobre ela. Hoje vou falar de Tokyo Ghoul, do mangaká Sui Ishida, publicado aqui no Brasil pela editora Panini. A editora também publicou sua continuação Tokyo Ghoul: RE, e hoje pretendo falar um pouco sobre ambos.
Devo dizer que, na época, comprei os primeiros volumes e alguns deles tinham uns problemas meio esquisitos. Por exemplo, o volume três, por exemplo, tinha a capa menor que as páginas internas. Era pouca coisa? Sim, mas ainda assim era menor. Não cheguei a comprar toda a obra, pois ela não me fisgou. Estava achando bem chata, na verdade. Contudo, depois de muitos anos, mais especificamente cerca de um mês atrás (junho de 2023), eu revisei a obra. Tenho um projeto pessoal de ler obras que fizeram sucesso na época em que eu era adolescente, e essa obra foi a primeira que resolvi ler. Hoje, com uma carga muito maior de obras lidas, achei que poderia tirar algo diferente da obra.
Mas por que eu desisti de Tokyo Ghoul? Resposta rápida: porque é um amontoado de ideias boas desperdiçadas, mas vamos desenvolver isso um pouco melhor.
Sobre o que é Tokyo Ghoul, é um pouco difícil falar, pois parece que nem a obra sabe... Estou perdendo o foco, então vamos do começo, com uma sinopse que você encontrará em qualquer lugar.
Tokyo Ghoul acompanha Ken Kaneki, um estudante universitário com uma vida pacata e gosto por literatura. Quando ele vai a um encontro com a personagem Rize Kamishiro, uma mulher que Kaneki sempre encontrava na cafeteria onde ia para ler e nutria uma queda por ela, ela se revela um ghoul. Porém, durante o encontro, ocorre um acidente quase mortal, resultando no transplante de alguns órgãos de Rize em Kaneki para que ele possa sobreviver. Ao acordar, ele descobre que se tornou meio ghoul e meio humano, e agora ele começa a adentrar nesse mundo dos ghouls.
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| Tokyo Ghoul Vol. 1. Editora: Panini |
Essa é uma sinopse bem simples, e vale ressaltar antes de começar que os ghouls dessa obra são basicamente super-humanos que só podem comer carne humana e possuem um membro a mais, que é usado para lutar. Na obra, há uma explicação "científica", mas não me lembro muito bem dela. De resto, um ghoul é um ser humano normal, com emoções, costumes e uma sociedade. Agora, voltando ao que eu estava falando.
Tokyo Ghoul, para mim, tem um sério problema de foco. Parece que o mangaká queria construir um mundo e situar os personagens nele. Por isso, Kaneki é um personagem "orelha" (um personagem que não sabe de nada, e é usado para que se explique as coisas ao leitor enquanto o personagem também aprende). No entanto, nada é bem trabalhado. É aberto um monte de arcos para se trabalhar, e até o final de Tokyo Ghoul, desconsiderando o RE, nada é encerrado ou é muito mal trabalhado. Vou tentar abordar um por um.
Vamos começar com o primeiro, a discussão interna do Kaneki. Após sua transformação, temos um personagem principal que se descobre um ser que precisa comer carne humana para sobreviver. Sim, temos um começo de uma discussão sobre isso. Vemos ele não conseguindo comer e se recusando a comer porque não queria ser um "monstro". Isso vai se ligando a outros princípios que o personagem já carregava.
Por exemplo, ele tinha como princípio preferir machucar a si mesmo do que machucar alguém, uma coisa que ele viu a mãe dele fazer. Sua mãe era tão bondosa que a vida toda foi explorada e trabalhou até morrer. E aí temos uma discussão bacana sobre isso. Vemos que, se ele quer carregar esses princípios, ele precisa ser forte, não só fisicamente, mas mentalmente e como pessoa.
Bem, não, a gente não tem isso. O que temos é um personagem que até quase metade da obra é basicamente uma pedra, mesmo tendo entrado em um mundo de extrema violência, com guerras de gangues de ghoul, forças especiais os caçando, e que passa por dias de tortura para aí decidir que quer ficar forte para poder proteger os "amigos" deles. Um personagem que se resume basicamente aos dois princípios que falei. Um personagem que é quase uma folha em branco. Não dá pra falar que ele quebrou, que ele enlouqueceu, porque o cara já não tinha personalidade.
E depois desse choque psicológico, vemos alguma coisa mudar efetivamente no personagem? Bem, também não. Ele vira um personagem que agora tem cabelo branco e que vira um cachorro louco quando luta, que virou um canibal de ghouls, mas no resto efetivamente ele é o mesmo personagem. Veja, não é que não haja algumas coisas ali, até tem, mas é feito da maneira mais fraca possível. Quando acontece esse tipo de coisa, a obra tem que trabalhar isso, mostrar que aquilo realmente mudou o personagem.
Vou pegar um exemplo: Kaneki quando foi torturado, ele teve uma centopeia enfiada no ouvido. E isso, tirando uma coisa visual no poder dele, não gerou nada nele. Imagina como seria interessante ele ter criado um trauma por ter ouvido e ainda sentir como se tivesse uma centopeia no ouvido. Há tanto a se explorar em termos de horror nesse aspecto, e esse é só um exemplo do que ele sofreu e daria para explorar. O ponto é: a ideia não é ruim. Na verdade, se bem feito, isso ficaria muito bom. Mas a forma como é posta na obra tem a profundidade de um pires.
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| Esse manga é emo sad, socorro!! |
Você deve ter percebido que eu usei aspas na palavra "amigo", né? Então, tirando um personagem que já era amigo de Kaneki antes, os outros meio que viram amigos dele porque a obra falou que eram amigos. Veja bem, é claro que há um pouco de desenvolvimento, mas, mais uma vez, falta profundidade. Quando um personagem está em perigo ou sob risco, eu simplesmente não consigo me importar com esses personagens.
Eu não sei se consegui ser claro. Meu problema não é com as ideias da obra, é que tudo parece uma piscina de borracha infantil. Nada é aprofundado, sempre fica ali na superfície, o que é um puta desperdício de potencial.
Em relação aos inquisidores, na obra, os ghouls parecem ser de conhecimento comum, menos no primeiro capítulo que parece ser uma coisa meio incomum, até meio como uma lenda, como podemos ver na reportagem que tem no começo da obra. Porém, depois é tratado como uma coisa normal, o que já me incomoda muito. Afinal, se existe um ser que come humanos, a sociedade estaria preparada para isso, não seria apenas ter um grupo para caçar os ghouls, mas sim ter scanners que possam identificar ghouls em todos os edifícios públicos, por exemplo. E sim, esses scanners existem e são mostrados na obra, mas somente no quartel-general dos Doves.
E quem são os Doves? Eles são uma organização que caça os ghouls e, após matar um ghoul, eles transformam esse membro extra em uma arma dentro de uma maleta, para assim conseguirem lutar contra os ghouls.
E a gente vê alguns personagens dentro dessa organização, mas acompanhamos um ou dois personagens? Não, a gente acompanha uns 10 personagens só nesse núcleo. E aí eu te pergunto, tem como trabalhar 10 personagens em um núcleo secundário sendo que a obra tem uns 143 capítulos? Lembrando que há o núcleo principal com mais uns 9 personagens. Assim, se a obra tivesse tamanho suficiente, até daria, o problema é que ela não tem, aí quase nenhum dos personagens tem desenvolvimento. Então esse núcleo era simplesmente um porre de ler, porque não consegui me importar com ninguém ali. E claro que tem história ali de alguns personagens, mas é raso.
Além disso, há a introdução dos "iluminates", uma sociedade secreta de ghouls, mas a obra não explora claramente suas motivações ou propósitos. Ela mostra os integrantes, incluindo o homem que tortura o personagem principal, mas não aprofunda muito essa parte da história. Claro que isso no Tokyo Ghoul normal, no RE parece que esse é o foco.
Para encerrar toda essa linha de raciocínio um tanto confusa, Tokyo Ghoul não é de todo ruim, eu amo a arte cheia de nanquim da obra, sério a arte em certos momentos é maravilhosa e possui ideias muito boas, que poderiam render muitas histórias interessantes. No entanto, a criação do mundo e o desenvolvimento dos personagens acabam sendo um tanto rasos ou subjetivos. Porém, Tokyo Ghoul eu consegui ler. Agora o RE estava muito chato com um monte de diálogos expositivos, o que me deu uma sensação de que daria para lê-lo sem sem ter lido o Tokyo Ghoul original. Para confirmar essa impressão, pedi a opinião de um leitor que não connhecia nada de Tokyo Ghoul, o Traça. Pedi para ele ler os primeiros capítulos do RE para ver se ele poderia ser lido independentemente do Tokyo Ghoul normal.
E gostaria de jogá lo na fogueira aqui e pedir a opnião dele. Então Wil, o que você achou?
Quando meu amigo Tênia me chamou para entrar nesse experimento, eu topei de imediato. Tokyo Ghoul sempre foi um mangá que eu estava afim de ler, mas a preguiça sempre me manteve afastado. Eu sempre tive mais preguiça do que força de vontade para começar, e essa experiência parecia ser a chance perfeita para mergulhar nesse universo. Quem sabe seria melhor ter deixado a preguiça como a força dominante...
Comecei Tokyo Ghoul:RE com a missão de descobrir se a teoria do Tênia sobre a história anterior ser uma espécie de prequel para a atual fazia sentido, ou se, no fim das contas, não era essencial para entender a segunda parte. Acordamos que eu leria, no mínimo, 10 capítulos. Bem, não foi uma experiência muito satisfatória.
Falando da história como um todo, Tokyo Ghoul:RE fornece todas as informações necessárias sobre o funcionamento do mundo, as interações no serviço de segurança de Tokyo e essas criaturas assustadoras chamadas de Ghouls. Apresenta o protagonista, mas sem se aprofundar muito, deixando um mistério relacionado a algo que o atormenta desde o passado, algo relacionado ao monstro que habita dentro dele. Mas tudo parece superficial demais, entende? Introduz alguns outros personagens sem explorá-los muito, quase como se já devêssemos conhecer todos. Talvez realmente deveríamos, já que eu não li a parte anterior. No final dos dez primeiros capítulos, a sensação foi de um vazio total...
As tramas desse começo são super desinteressantes e monótonas, sem mencionar um elenco de personagens que carece completamente de carisma. No fim das contas, senti que, em termos de enredo, a primeira parte talvez não seja tão crucial, já que o autor traz todas as explicações necessárias nas tramas principais do início da segunda parte. Contudo, falta uma conexão com esses personagens. Falta algo que prenda a atenção na história e que te faça querer continuar, mesmo com uma trama tão morna e apática.
Ao término do experimento, eu diria que, se você está pensando em ler Tokyo Ghoul:RE, não pule a primeira parte. Ela pode ser essencial para você se sentir conectado aos personagens da segunda trama. Eu diria que esse experimento acabou diminuindo ainda mais minha vontade de seguir com essa história, e com certeza ela vai ficar lá no finalzinho das minhas prioridades.
Vale um adendo aqui: sei que no RE, o autor pode ter trabalhado algumas coisas, encerrado muitos aspectos e melhorado algumas outras discussões, mas não vou ler o RE, pelo menos não agora.
No entanto, eu sempre recomendo ler a obra, pois não sou o dono da verdade e você pode muito bem gostar, e ela não é tão ruim assim, vejo muitas partes agradando muito algumas o pessoas, no meu caso é q já li coisas melhores. Porem como o Wil disse, leia a primeira parte, pelo menos pros personagens não ficarem tão vazio, apesar que alguns são da parte dois mesmo, é né….
Ass: Tenia



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